Vestido com roupas surradas, carregando apenas a coragem e uma câmera escondida, o prefeito de Criciúma (SC), Vagner Espindola, mergulhou no universo daqueles que a cidade insiste em não ver: os moradores de rua. No dia 10 de julho, ele deixou o gabinete, a gravata e a rotina de decisões para viver, por 24 horas, a experiência de quem habita as calçadas — não por escolha, mas por exclusão.
O experimento, divulgado em vídeo nas redes sociais do próprio prefeito, teve como propósito declarado “compreender, na pele, a realidade dos invisíveis” e reavaliar as políticas públicas voltadas à população em situação de rua. O que se viu foi um choque de humanidade.
A cidade que olha, mas não enxerga
Em apenas 15 minutos disfarçado, já havia recebido R$ 5 em esmolas. Um gesto automático de quem passa e estende a mão, mas raramente oferece um olhar. Durante o dia, o prefeito caminhou pelas ruas do centro da cidade, esgueirando-se entre bancos de praça e fachadas comerciais, ora ignorado, ora acolhido por quem conhece a rua não por curiosidade, mas por sobrevivência.
O momento mais impactante foi quando passou diante da própria família. A esposa e os filhos não o reconheceram. “Ali eu entendi o que é ser realmente invisível”, relatou, com a voz embargada.
A noite fria, a realidade crua
Quando o sol caiu sobre Criciúma, a experiência mudou de tom. Espindola seguiu para a região do Pinheirinho, área conhecida por abrigar dezenas de pessoas em situação de vulnerabilidade. Dormiu ao relento, enrolado em papelões ao lado da Igreja Santa Bárbara. Foi lá que um servidor da assistência social o abordou. Tentava oferecer ajuda, sem saber que falava com o prefeito da cidade.
Foi nesse momento que Espindola revelou sua identidade e encerrou o experimento. “Esse trabalho que vocês fazem aqui é muito mais do que assistência. É cuidado, é presença. É a mão estendida onde o Estado costuma faltar”, declarou ao funcionário, emocionado.
Depois da rua, o desafio da política
Nas redes, Espindola fez um balanço da experiência. “Precisamos tirar as pessoas das ruas com dignidade e com firmeza. Não basta oferecer abrigo — é preciso oferecer caminho”, afirmou. Para ele, as praças e calçadas devem ser “espaços de convivência das famílias, nunca de abandono ou uso de drogas”.
A experiência dividiu opiniões: para uns, um gesto nobre; para outros, encenação com fins midiáticos. Mas uma coisa é certa: por um dia, ao menos por um dia, alguém com poder viveu o que tantos vivem por uma vida inteira — e decidiu falar disso com o rosto lavado pelo asfalto.
Agora, resta saber: o que Espindola fará com aquilo que viu, sentiu e escutou no chão da cidade? Porque descer do pedestal é só o primeiro passo. O próximo exige política com alma. E ação com propósito.
Da redação








