Num país onde o silêncio muitas vezes grita mais alto que as urgências, a Comissão de Saúde da Câmara dos Deputados acaba de abrir espaço para duas vozes que há tempos pediam escuta. Foram instaladas, nesta semana, duas novas subcomissões permanentes: uma voltada exclusivamente para o Transtorno do Espectro Autista (TEA) e outras neurodiversidades, e outra dedicada às doenças raras.
Até então, esses temas trilhavam juntos o mesmo caminho legislativo. Mas agora, como se cada um ganhasse sua própria estrada, passam a receber atenção especializada e segmentada, diante da complexidade e da urgência que ambos os assuntos impõem ao sistema de saúde pública.
Uma demanda que se agiganta
Quem presidiu os debates que resultaram nessa divisão foi a deputada Flávia Morais (PDT-GO), que deu voz à necessidade de desmembramento. Em entrevista à Rádio Câmara, ela explicou que o avanço nos diagnósticos e o aumento da incidência de autismo no Brasil exigem uma atuação mais profunda e estratégica.
“O autismo teve um aumento significativo, daí a necessidade de diagnóstico precoce, de mais equipes multiprofissionais, de acesso à educação inclusiva e aos tratamentos específicos”, afirmou.
Segundo a parlamentar, lidar com o espectro autista não é apenas garantir o direito à saúde — é assegurar inclusão, dignidade, acesso e acolhimento desde a infância até a vida adulta.
Raras, mas urgentes
Por outro lado, as doenças raras, que afetam proporcionalmente menos pessoas, carregam uma carga de sofrimento imensa e silenciosa. Estima-se que existam quase 6 mil tipos diferentes dessas doenças, muitas vezes com medicamentos de alto custo, tratamentos limitados e pouco investimento em pesquisa clínica no Brasil.
“São doenças que, justamente por afetarem poucas pessoas, acabam ficando fora do radar do poder público. Mas isso não pode ser desculpa para invisibilidade. Pelo contrário: o pequeno número de casos exige de nós uma atenção ainda mais especial”, defendeu Flávia.
Mais que estrutura, é compromisso
A criação dessas duas subcomissões é mais que uma reorganização técnica: é um gesto político. É o reconhecimento de que há vidas que não cabem nas estatísticas gerais e precisam de foco exclusivo para que não sejam engolidas pela lentidão da máquina pública.
As novas frentes vão atuar na fiscalização de políticas públicas, na proposição de projetos de lei, na realização de audiências públicas, e principalmente, na construção de pontes entre o Congresso e as famílias, profissionais e instituições que enfrentam diariamente as dores e os desafios do autismo e das doenças raras.
Um novo capítulo na saúde pública
O Parlamento, tantas vezes criticado por sua lentidão, acerta ao abrir essas novas portas. Afinal, o futuro — para ser justo — precisa incluir quem até hoje teve que gritar por atenção. E, agora, com essas subcomissões, o que antes era dividido por silêncio, passa a ser tratado com escuta especializada.
Se haverá avanços concretos? O tempo e o trabalho dirão. Mas já é um começo. E para quem vive no limite da espera, um começo pode significar muito mais do que parece.
Da redação








