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Câmera fotográfica love

Porque, no fundo, fotografar com a LOVE era mais do que registrar o mundo. Era acreditar que a vida, mesmo fora de foco, ainda podia ser linda. E foi. Foi linda demais.

Rota Norte Notícias Por Rota Norte Notícias
Fonte: Pitter Lucena é jornalista e escritor
14/11/2025
em No Tempo do Ronca
Câmera fotográfica love
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Antes que o mundo se tornasse refém das selfies, dos filtros milagrosos e da ilusão de perfeição digital, havia um tempo em que a fotografia era um ritual quase sagrado. Era o tempo da Câmera LOVE, a pequena caixa de plástico que fazia qualquer um se sentir fotógrafo — ainda que o resultado dissesse o contrário.

Que maravilha era aquele tempo! Um tempo em que cada clique custava coragem. Não existia “ver e apagar”. Fotografar era um ato de fé — e de teimosia. A gente confiava na sorte, na luz, e talvez em algum santo protetor dos retratos, porque o resto era mistério.

A LOVE era um milagre em miniatura. Barata, leve e atrevida, aparecia nas festas de aniversário, nas excursões escolares, nas viagens de férias e nos casamentos de tios distantes. Cabia na palma da mão e, por algumas semanas, carregava dentro de si o poder de congelar o tempo. Só que, quando o tempo voltava à tona, revelado em papel brilhante, ele vinha sempre torto, borrado ou com um pedaço faltando. Mesmo assim, a gente amava.

Comprava-se a câmera inteira, como quem adquire um bilhete de loteria visual. Trinta poses — trinta chances de glória ou vexame. E, quando o contador marcava o último clique, vinha o segundo ato da aventura: levá-la à loja SONORA, o templo das revelações.

A loja era um pequeno santuário de odores químicos e sonhos suspensos. Lá dentro, os mágicos de jaleco branco transformavam o invisível em imagem. Entregávamos a câmera com as mãos quase trêmulas, como se estivéssemos depositando um segredo. O atendente sorria, dizia “três dias úteis”, e a gente saía com o coração cheio de expectativa. Três dias — mas pareciam três eternidades.

Enquanto isso, o filme dormia no escuro, em banhos e líquidos que tinham nomes misteriosos: revelador, fixador, emulsão. Era alquimia pura. E, quando finalmente chegava o momento de buscar o envelope pardo com as fotos, o coração batia mais forte do que em dia de prova.

Quanto à revelação! Nenhum aplicativo moderno jamais conseguiu reproduzir aquele instante de suspense. O cheiro de papel fotográfico, o brilho das imagens ainda úmidas e, claro, o primeiro choque: olhos fechados, rostos cortados, sombras indecifráveis. Uma sequência de retratos tão desastrados que mereciam moldura só pela coragem. Mas, entre as ruínas fotográficas, sempre havia um milagre: uma foto boa. Uma só. E bastava.

Era aquela que capturava o sorriso no instante certo, o olhar distraído da criança, o pôr do sol que, por acaso, não estourou de luz. Essa, sim, era guardada com orgulho — e ganhava lugar de honra no álbum de capa vermelha, entre páginas transparentes e cheiro de plástico envelhecido.

Esses álbuns, aliás, eram como diários silenciosos das famílias. Cada folha guardava uma era: o vestido xadrez da formatura, o churrasco na laje, o cachorro que já partiu, a viagem para o litoral onde ninguém sabia posar. Havia verdade naquelas imperfeições.

As fotos eram tortas, mas sinceras; tremidas, mas cheias de alma.
A LOVE tinha personalidade própria. Era temperamental, imprevisível, e seu flash — limitado a quatro disparos heroicos — era como um fósforo tentando iluminar o universo. Fotografar à noite era um ato de loucura. O resultado? Rostos flutuando em meio ao breu, olhos vermelhos de demônio e fantasmas que pareciam rir do fotógrafo.

Ainda assim, ninguém desistia. A esperança de “dessa vez sair boa” era mais teimosa que o destino.
E havia o lado social da coisa. Em festas, quem trazia uma LOVE era rei. Ela circulava de mão em mão, cada um querendo registrar seu momento. “Deixa eu tirar uma!”, “Agora uma comigo!”, “Mais pra esquerda, o flash não pega!” — e lá se iam as poses, uma após a outra, até que o contador chegava ao fatídico zero.

O silêncio que se seguia era quase luto. No entanto, era um luto bonito — porque significava que algo havia sido vivido.
Naquela época, a fotografia era uma prova de presença. A gente tirava foto não para publicar, mas para lembrar. E lembrar, às vezes, é mais poderoso que exibir.

A LOVE não prometia perfeição. Ela oferecia emoção. Cada clique era único, irrepetível, definitivo. Não havia “segunda chance” nem “modo retrato”. Havia só a vida, nua e crua, registrada em sua imperfeição mais bela.

Hoje, abrimos o celular e vemos mil fotos iguais — todas perfeitas, todas sem alma. Falta o erro, o acaso, o susto. Falta a gargalhada que vinha quando descobríamos que, na foto da formatura, o noivo piscou, a tia saiu de boca aberta e o bolo apareceu cortado pela metade.

Mas, talvez, seja justamente isso que tornava a LOVE tão inesquecível: ela não capturava apenas imagens, capturava momentos — com tudo que há de humano neles.

Por isso, ainda que o tempo tenha engolido suas lentes e transformado seus filmes em relíquias, a Câmera LOVE continua viva nos álbuns esquecidos no fundo dos armários, nas gavetas cheias de lembranças, nas risadas que voltam quando encontramos uma foto torta, uma careta antiga, um instante mal revelado — e, ainda assim, perfeito.

Porque, no fundo, fotografar com a LOVE era mais do que registrar o mundo. Era acreditar que a vida, mesmo fora de foco, ainda podia ser linda. E foi. Foi linda demais.

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