A substituição acelerada do então deputado estadual TH Jóias (MDB) na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) virou peça central nas investigações da Polícia Federal sobre a infiltração do Comando Vermelho em estruturas do poder fluminense. Para os investigadores, a operação política — batizada de “Carta Picciani” — é um forte indício de que houve vazamento de informações para proteger aliados da facção, o que culminou, dias depois, na prisão do presidente da Casa, Rodrigo Bacellar (União Brasil).
O roteiro da “Carta Picciani” em 24 horas
– Exoneração súbita: Rafael Picciani (MDB), então secretário de Esporte e Lazer, foi exonerado em edição extra do Diário Oficial no dia 3 de setembro.
– Retorno imediato à Alerj: Com a exoneração, Picciani reassumiu sua cadeira de deputado no mesmo dia.
– Suplência anulada: TH Jóias, que ocupava a vaga como suplente, deixou de ser parlamentar horas após sua prisão pela PF.
– Novo titular na secretaria: Rodrigo Dantas Scorzelli foi nomeado para chefiar a pasta, fechando o movimento administrativo.
Efeito prático: a manobra evitou que a Alerj tivesse de deliberar sobre manter ou não a prisão de TH Jóias, como determina a Constituição.
Por que a PF viu um “forte indício”
– Vazamento com finalidade política: Para a PF, a rapidez da troca sugere que informações sensíveis circulavam previamente entre agentes públicos, com objetivo de blindar quadros ligados ao Comando Vermelho.
– Proteção de aliados: O desenho da operação aponta para uma tentativa de preservar redes de influência dentro da Alerj e do Executivo estadual.
A resposta do STF
– Devassa determinada: O ministro Alexandre de Moraes ordenou a análise minuciosa dos processos eletrônicos do Estado do Rio para reconstruir a cronologia, os responsáveis e as autorizações que viabilizaram a “Carta Picciani”.
– Conexão com prisões: A ofensiva judicial se insere no contexto que levou à prisão de Rodrigo Bacellar, acusado de atuar para obstruir investigações e interferir em operações.
O choque institucional
– Do céu ao inferno: Em dez meses, Bacellar saiu de uma reeleição unânime e de ser cotado como sucessor do governador à condição de preso.
– Sinal amarelo na Alerj: A manobra expôs como decisões administrativas podem redesenhar, em horas, a composição da Casa e seus desdobramentos sobre garantias e prerrogativas parlamentares.
O que vem pela frente
– Rastreio digital: A peritagem nos sistemas do governo deve identificar quem acionou cada etapa da operação e quando.
– Impacto jurídico: A prova de vazamentos coordenados pode aprofundar o alcance das medidas cautelares, atingir outros agentes e reabrir o debate sobre salvaguardas contra interferências político-criminosas.
Em resumo: a “Carta Picciani” não foi apenas um ato burocrático — foi um movimento milimétrico que mudou o tabuleiro em poucas horas. Ao ligar a manobra ao vazamento de operações, a PF e o STF passam o Estado do Rio a limpo, seguindo o rastro administrativo de uma engrenagem que pode ter operado para proteger a facção e seus aliados.
Da redação








