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QUANDO O MUNDO CABIA NUMA FITA PRETA

Rota Norte Notícias Por Rota Norte Notícias
Fonte: Pitter Lucena é jornalista e escritor
23/01/2026
em No Tempo do Ronca
QUANDO O MUNDO CABIA NUMA FITA PRETA
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Houve um tempo — e hoje soa quase como delírio confessar isso — em que a felicidade morava dentro de uma fita preta, enrolada em quilômetros de película magnética. Um objeto simples, pesado, silencioso quando parado, milagroso quando em movimento.

O nome desse prodígio doméstico era videocassete. Quem atravessou os anos 80 e 90 sabe: possuir um era ter o futuro estacionado na sala, um pedaço de cinema instalado entre o sofá e a estante, um altar eletrônico diante do qual famílias inteiras se reuniam com devoção.

O videocassete não era apenas um aparelho. Era o coração moderno da casa. Um retângulo robusto, cheio de botões misteriosos, com um visor que piscava números verdes como se falasse outra língua — uma língua do amanhã.

Quando ele chegou, parecia que o cinema tinha desistido das ruas e decidido morar conosco. De repente, não era mais preciso enfrentar filas, nem esperar o dia certo da programação da televisão. Bastava abrir a boca do aparelho, engolir a fita VHS, apertar o botão mágico — play — e o mundo inteiro se projetava na tela da TV.

Nos tempos do ronca, ter um videocassete era sinal de ascensão. Um símbolo inequívoco de status. Ele reinava soberano na estante, ao lado do som três-em-um, do equalizador iluminado e dos discos de vinil. Era o trono do entretenimento.

As casas que o possuíam viravam ponto de encontro, cinema improvisado, território respeitado. “Na casa do fulano tem vídeo”, dizia-se com a mesma reverência com que antes se falava de quem tinha carro novo.
Mas o videocassete não vivia sozinho. Ele exigia uma relação íntima com a fita VHS — essa entidade caprichosa, quase humana. Havia as fitas originais, compradas a peso de ouro, com capas coloridas, plásticas, cheirando a novidade e promessa.

E havia as fitas de batalha, gravadas da televisão, marcadas pelo uso, pelo tempo e pela caneta. “Filme bom”, “Não apagar”, “Terror”, “Especial de Natal”, “Show do Roberto”. Cada rótulo era uma tentativa de organizar a memória, um arquivo doméstico da vida cotidiana.

E as locadoras… ah, as locadoras! Verdadeiras catedrais da curiosidade e do desejo. O cheiro inconfundível de carpete gasto, o ar-condicionado frio demais, as prateleiras intermináveis de capas brilhantes. Os filmes alinhados como soldados coloridos, esperando o toque de uma mão indecisa.

Escolher um título não era simples: era um rito. Comédia ou ação? Romance ou terror? Dublado ou legendado? E sempre o aviso solene: “Esse é lançamento, só pode ficar dois dias.”
O atendente da locadora era uma espécie de sacerdote do cinema. Sabia tudo, opinava sobre todos os gêneros, aconselhava com autoridade:
— Leva esse aqui. É bom demais. Acabou de chegar de São Paulo.

Levar um lançamento para casa era um acontecimento digno de data marcada. A fita era tratada como joia rara. A pipoca estourava no fogão, o sofá virava plateia, e a casa inteira se organizava em função daquele momento. As crianças disputavam o controle remoto — que muitas vezes nem era remoto, mas um fio longo, obrigando alguém a levantar toda vez que surgia o grito coletivo:
— Rebobina!

E quando o filme acabava, vinha o gesto solene: apertar o rewind. O chiado da fita voltando era quase uma música. Um som que embalava o fim da sessão. Alguns mais zelosos tinham até rebobinadores portáteis, em forma de carrinho, só para poupar o videocassete do esforço. Rebobinar não era obrigação: era cortesia.

Um ato de amor ao próximo, ao aparelho, ao próprio tempo.
Mas o videocassete também tinha seus humores. Bastava um grão de poeira, uma dobra invisível na fita, e surgiam fantasmas na tela: linhas tremidas, sombras dançantes, ruídos inexplicáveis. E então entrava em cena o ritual mais ancestral de todos: abrir a fita e soprar. Como se o sopro humano tivesse poderes mágicos sobre o magnetismo da tecnologia. E, incrivelmente, às vezes funcionava.
A verdadeira revolução aconteceu quando descobrimos que o videocassete gravava. Gravar! Essa palavra tinha gosto de utopia. Programar o aparelho para registrar um filme da madrugada exigia paciência, fé e uma boa dose de coragem. Muitos erravam o horário, outros esqueciam de colocar a fita. Mas quando dava certo, era vitória histórica. Assistir no dia seguinte ao filme gravado — comerciais inclusos — era um orgulho silencioso.

Os anúncios, aliás, eram parte da experiência. Ver propagandas da Varig, do sabão em pó Minerva ou de refrigerantes que já não existem era atravessar um túnel do tempo sem aviso prévio.
Nas noites de sábado, as casas viravam cineclubes. Luzes apagadas, ventilador girando, a fita rodando. O pai pedia silêncio, a mãe distribuía refrigerante em copos de alumínio, o irmão menor dormia antes do final.

Quando a fita engolia o filme e travava, vinha o pânico coletivo. Abria-se a tampa, girava-se a engrenagem com o dedo, soprava-se, rezava-se. E quando o vídeo voltava à vida, o alívio era geral, quase religioso.

Com o tempo, as fitas se multiplicaram. As estantes viraram videotecas particulares. “De Volta para o Futuro”, “E.T.”, “Ghost”, “Rambo”, “A Lagoa Azul”. Cada título era mais do que um filme: era uma lembrança, um fragmento da cultura popular guardado com carinho.

Como tudo que reina por um tempo, o videocassete também conheceu o declínio. Vieram os DVDs, depois os pen drives, depois o streaming. O gigante de botões e fitas virou relíquia. Hoje, quem ainda tem um guarda como quem guarda uma máquina do tempo — porque é exatamente isso que ele é.

Assistir a um VHS hoje é como folhear um álbum antigo. A imagem um pouco borrada, o som levemente chiado, o rastro magnético cruzando a tela. Há nisso uma ternura que nenhuma resolução em 4K consegue reproduzir. O videocassete não era apenas um aparelho: era um portal. Um elo entre gerações. Uma fogueira moderna em torno da qual famílias se reuniam para rir, chorar e sonhar.

E quem viveu aquele tempo sabe: o prazer estava no gesto. Apertar o play era acender a magia. Rebobinar era prolongar o encanto. Ejetar a fita, ao final, era se despedir de um amigo que prometia voltar — e sempre voltava.

Hoje, em meio à pressa, aos algoritmos e às maratonas sem fim, o videocassete nos sussurra sua lição mais doce: ver um filme era mais do que assistir. Era viver o tempo. Porque, no tempo do ronca, antes da abundância e da pressa, havia algo raro e precioso — a espera, o ritual, o clique do botão e o som da fita deslizando. O prelúdio perfeito para o cinema caber inteiro dentro de uma noite qualquer.

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