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CONTOURÉ: O PERFUME QUE FICOU NO AR DO TEMPO

Rota Norte Notícias Por Rota Norte Notícias
31/01/2026
em No Tempo do Ronca
CONTOURÉ: O PERFUME QUE FICOU NO AR DO TEMPO
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Há cheiros que não pedem licença ao calendário. Eles atravessam décadas como quem atravessa uma rua conhecida, sem pressa, sem medo, certos de que ainda serão reconhecidos do outro lado. Não moram apenas no olfato: vivem nas dobras da memória, nas rugas que o espelho revela, nas risadas que insistem em voltar e, às vezes, nas lágrimas que chegam sem aviso. Há perfumes que não despertam lembranças — despertam o coração. E entre todos os aromas que marcaram os anos 80 e 90, um nome ainda flutua no ar da saudade com brilho próprio, como um cometa que se recusa a desaparecer: Contouré.

Contouré. Dizer o nome já é sentir o cheiro. Um acorde inconfundível, cítrico e doce, onde a mandarina e a bergamota dançavam com o mistério profundo do almíscar. Era o perfume dos sonhos possíveis, das paixões nascidas nas esquinas, dos adolescentes que queriam parecer adultos — e dos adultos que, no fundo, desejavam permanecer jovens para sempre.

Nos tempos do ronca, quando o vento era o melhor mensageiro e o amor ainda se anunciava em cartas dobradas e olhares demorados, o Contouré reinava absoluto. Não era apenas um frasco esquecido sobre a penteadeira: era símbolo, ritual, talismã. Um toque atrás da orelha, outro no pulso, e algo mudava. Não no espelho, mas por dentro.

O rapaz tímido ganhava postura de conquistador. A moça simples transformava-se em rainha da pista. O Contouré tinha o dom raro da metamorfose. Era uma armadura invisível, feita de cheiro e coragem. E como era forte o seu feitiço.
As ruas, os salões, os corredores das escolas eram percorridos por trilhas aromáticas que anunciavam presenças antes mesmo do corpo aparecer. O perfume chegava primeiro, como um presságio gentil. “Ele chegou”, dizia o ar. “Ela está perto”, sussurrava o vento.
O frasco, discreto, escondia um poder quase alquímico. Ninguém falava em notas olfativas, nem em pirâmides aromáticas. Falava-se de impacto. De presença. De cheiro marcante. Cheiro de gente bonita. Cheiro de quem sabia — ou fingia muito bem saber — o que queria da vida.

Era um tempo em que perfume bom não precisava custar uma fortuna. Bastava entrar numa lojinha de esquina, numa farmácia de letras cursivas na fachada, e sair com um pedaço de glamour embrulhado em papel fino. O Contouré era democrático: perfumava operários e estudantes, bancários e poetas, donas de casa e namorados de fim de semana. Não fazia distinção social. Fazia encontros.

Nas festas de sábado, antes mesmo do primeiro acorde de Biquini Cavadão ou Roupa Nova ecoar nas caixas de som, o ar já estava tomado por uma névoa aromática. Era uma guerra silenciosa de perfumes — e o Contouré comandava as tropas. Misturava-se às luzes coloridas, ao suor da dança, ao riso fácil dos jovens que acreditavam, com fé inabalável, que o mundo era eterno e que o amor começava com um olhar certo e um perfume bem escolhido.

As moças reconheciam o namorado pelo cheiro. Bastava uma brisa, e o coração acelerava. “Ele está chegando”, diziam, sorrindo antes mesmo de vê-lo. E lá vinha o príncipe do Contouré: camisa semiaberta, cabelo domado por brilhantina, olhar seguro de quem acreditava que aquele aroma era extensão da própria alma. E era. O perfume falava por ele quando as palavras faltavam.

O Contouré virou assinatura invisível de uma geração que queria marcar presença — literalmente. Ser lembrado pelo cheiro era quase um projeto de vida. Os exageros faziam parte do jogo. Sempre havia aquele que acreditava que mais perfume significava mais sucesso. E lá ia ele, banhado do pescoço aos tornozelos, deixando um rastro tão intenso que até o cachorro da rua levantava a cabeça. As mães, horrorizadas, reclamavam:
— Meu Deus, menino, parece que caiu dentro do frasco!
Mas o jovem, firme em sua convicção aromática, respondia:
— Melhor ser lembrado por cheiro bom do que por cheiro nenhum.

E havia o lado romântico, esse talvez o mais duradouro. Quantas histórias começaram em salões perfumados por ele? Quantas danças lentas, quantos abraços tímidos, quantos beijos roubados traziam aquele aroma como trilha invisível? Anos depois, bastava sentir algo parecido para o tempo recuar. O coração voltava àquela noite, àquela música, àquele instante que nunca mais se repetiu — mas nunca foi embora.

O Contouré não separava gêneros na memória. Era comum o mesmo frasco dividir espaço na cômoda do casal: ela usava antes da missa, ele antes da pelada de domingo. O cheiro se espalhava pela casa, entranhava-se nas cortinas, nos travesseiros, nos gestos cotidianos. Virava lar.
Nas manhãs de domingo, o perfume ainda pairava nas ruas, misturado ao cheiro de pão quente e ao eco distante das risadas da noite anterior. Era o cheiro de um tempo mais lento, mais humano, mais sensorial. Não era apenas perfume. Era atmosfera.

Estava nas cartas perfumadas enviadas pelos Correios, nos guardanapos guardados como relíquias, nos abraços que ficavam na roupa depois da despedida.
Vieram outros perfumes, mais caros, mais sofisticados, mais discretos. Vieram tendências, frascos elegantes, campanhas internacionais. Mas nenhum conseguiu apagar o Contouré da memória afetiva de quem viveu aquele tempo. Ele ficou ali, guardado como um primeiro amor — imperfeito, intenso, inesquecível.

E se hoje, andando por uma rua qualquer, uma brisa insistente trouxer um eco daquele cheiro cítrico e doce, não estranhe o susto no peito. É o tempo soprando lembranças. É a juventude chamando de volta.

O Contouré foi mais que um aroma. Foi uma época engarrafada. Foi ousadia e ternura. Foi o cheiro das festas, dos amores, das descobertas. Talvez ainda esteja por aí, invisível, flutuando no ar, misturado ao primeiro beijo, ao refrão de uma música antiga, ao rastro de alguém que partiu deixando o perfume antes de dobrar a esquina.
O tempo passa. Sempre passa. Mas o Contouré — ah, o Contouré — continua perfumando a eternidade.

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