Houve um verão — e depois outro, e mais outro — em que a cidade inteira parecia girar na ponta de uma cordinha. As manhãs chegavam com cheiro de merenda, poeira de pátio e promessa de manobra perfeita. Das mochilas, dos bolsos do short, das mãos suadas, brotava o mesmo planeta portátil: dois discos, um eixo, uma linha. Ioiô. Palavra redonda, brinquedo redondo, destino redondo. Quem viveu os anos 90 sabe: não era passatempo. Era rito, febre, milagre de centrífuga.
A iniciação começava antes do primeiro giro. O discípulo escolhia a sua arma na banca de jornal ou no camelô da praça: transparente com glitter, opaco e fosco como bola de bilhar, com luz interna que piscava feito vaga-lume elétrico, com logotipo de refrigerante, com caveira fluorescente. O vendedor soprava a mitologia em voz baixa — “esse tem rolamento, dorme mais”; “esse é de eixo liso, responde rápido”; “imperial pra quem tá começando, borboleta pra quem nasceu trapezista”. A gente nem sempre entendia as palavras, mas entendia o brilho: um brinquedo que prometia domesticar o invisível.
Em casa, vinha o batismo da corda. Aquela linha amarela, de algodão mesclado, tinha de ser desfiada, torcida, domada. A lição secreta: o laço no dedo médio — nunca o indicador, nunca o anelar — apertado o suficiente para não escapar, frouxo o bastante para não roçar a alma. A altura? Entre umbigo e esterno, ensinavam os velhos mestres do recreio, medindo o fio com uma gravidade de alfaiate. E então, o gesto: um balanço pequeno, o braço desce, a mão libera, o ioiô cai como meteoro e — se o mundo estiver de acordo — gira, canta, vibra, dorme no fim da linha. Ali, naquele zumbido baixo, mora o coração do brinquedo: som de abelha satisfeita, motor de ventilador antigo, mantra de infância.
No começo é humilhação. O “sobe e desce” sai torto, o “dorminhoco” cochila e morre, a corda faz nó de marinheiro bêbado. Os dedos ardem de string burn, aquela queimadura fina que assina o iniciante. A cada erro nasce uma invenção: soprar o eixo, ajustar a tensão do fio, untar com uma gota de óleo do portão (“lubrifica o rolamento, mas não exagera, senão o bicho vira preguiça eterna”), girar no sentido contrário para desfazer a helice de azar acumulada na corda. O ioiô é professor severo: te dá a lição com um peteleco na testa, te nega a glória por um milímetro, te concede um milagre e retira dois — só para que você aprenda o preço do controle.
Aos poucos, a gramática cresce. “Rock the Baby” vira “Balançar o Neném”: a corda vira berço, o brinquedo balança no centro do triângulo, e por um segundo a rua toda fica maternal. “Around the World” é círculo completo, braço de hélice, e toda vez alguém toma um tapa no queixo para lembrar que o mundo só gira quando o corpo consente. “Eiffel Tower” é arquitetura com barbante: dedos pinçando, puxando, cruzando, e a torre nasce no ar, tensa, elegante, o ioiô no pé da estrutura como turista obediente. “Trapeze”, a joia: o brinquedo dorme, salta para a corda esticada como hamaca de circo, e o jogador vira equilibrista. “Brain Twister”, “Split the Atom”, “Elevator” — nomes que soam como capítulos de um livro proibido, recitados com respeito no pátio.
E então, o mito, o Passeando com o Cachorro. A linha liberta, o ioiô rola no chão liso como se cheirasse postes invisíveis, volta sem tropeçar no cadarço, obedece sem coleira. Quase ninguém acerta na primeira semana. O cachorro foge, entra debaixo da banca de revista, late em língua de plástico. Mas quando ele, enfim, acompanha o dono e retorna para a mão como quem senta por comando, um coro interno se ergue — você sente, pela primeira vez, que a gravidade assina um tratado de paz contigo.
A escola vira república do eixo. Há castas. Os que só sobem e descem — arroz e feijão, o gesto necessário. Os do “dorminhoco” alongado, respeitados pelo silêncio que sabem produzir nas alturas. Os que desenham triângulos, pontes e estrelas com a linha — arquitetos de praça. E os deuses: garotos e garotas de boné torto, gorrinho colorido, flanela na cintura, que executam sequências longas sem tocar no chão, fazendo do recreio um espetáculo de malabarismo manso. Em volta, arquibancadas improvisadas. A professora passa e finge não ver: confiscar aquele instante seria cometer crime contra a física aplicada da infância.
Há campeonatos. Primeiro, tribais: “valendo laranja”, “valendo adesivo”, “valendo o último gole do guaraná”. Depois, oficiais: faixa de lona no pátio, cartaz na cantina, apresentador de microfone de pilha esgoelando “êêêêê”! A banca de jornal vira patrocinadora; a marca de refrigerante aparece com ioiôs que piscam — luz vermelha e azul, discoteca de bolso — e com o santo graal do período: o ioiô de rolamento e resposta “suave”, que dorme por eternidades contáveis, permitindo truques com sobrenome. Os olhos brilham. O desejo, naquela década, tinha eixo e LED.
Mas o ioiô não é apenas vitrine: é oficina. Em casa, caixas de sapato viram laboratório de cordas, rolamentos, eixos sobressalentes, resina, graxa, grafite. Aprendemos que o fio tem duas naturezas: torção demais, o ioiô “responde” agressivo; torção de menos, dorme em coma. Descobrimos que existe um universo entre imperial (formato estreito, bom para retornar rápido) e borboleta (bojo aberto, generoso com os truques de corda). Levantamos hipóteses: será que encurtar dois dedos melhora o “trapeze”? Será que a luva de algodão rouba o calo necessário? Será que a cordinha da marca X aguenta mais atrito? A infância inventa engenharia.
E como toda engenharia, enfrenta suas tragédias. A corda arrebenta — e o ioiô descreve a parábola perfeita rumo ao bueiro: lenda de bairro. O eixo desaperta, o disco salta, a rosca gira no asfalto e vai embora feito cometa de plástico. O “Around the World” mal iniciado acerta o coleguinha no ombro — diplomacia de recreio, pedido de desculpa, gelo improvisado com latinha de suco. O “dorminhoco” alongado decide virar insônia permanente e se recusa a voltar — lição sobre os limites do controle.
Mesmo assim, o brinquedo funda uma etiqueta. O colega empresta o ioiô e, junto, uma porção de confiança: “não dá nó no meu fio”, “não deixa bater no chão”, “se subir rápido, segura na concha da mão, não no eixo”. Descobrimos que habilidade tem um barulho peculiar: o zumbido grave, uma rota fixa de ar. E que generosidade é a mão que, após o truque, oferece o laço para o próximo tentar — com o olhar que diz “vai, eu te seguro se der errado”.
Naquela década, a publicidade multiplicava milagres. A TV prometia ioiô que “nunca para de girar”, “nunca erra a volta”, “nunca…”, e a gente sabia que era mentira bonita — ainda assim, acreditava. Porque havia noite. Sim, havia noite: a rua de poste amarelo, o círculo de crianças, os ioiôs luminosos desenhando constelações no ar; pequenos Saturnos saltando entre as mãos; sombras correndo nos muros. A cidade respirava devagar, e cada zummm parecia afinar a lua.
E havia também filosofia, embora a gente só desconfiasse.
O ioiô ensinava negociação com o mundo: não é vencer a gravidade, é convencê-la a brincar. Ensinava paciência: a perfeição é repetição com rumor de vento. Ensinava fracasso e reparo: nó desfeito vira músculo novo. Ensinava discreta vaidade: truque bonito é aquele que volta para a mão com a mesma elegância com que partiu. Ensinava amizade: ninguém aprende sozinho a torre, o trapézio, o cachorrinho — heranças de pátio são sempre coletivas.
Também havia ciência, ainda que embrulhada em mito. Falávamos em força centrífuga como se ela fosse pessoa; aprendíamos, sem dar nome, a precessão do giroscópio: inclina a mão, o ioiô responde retardado, como barco que contorna uma maré. Descobríamos que um milímetro no eixo muda o destino, que um fiapo de algodão no rolamento vira poeira nos nossos planos. E ríamos, porque errar tem uma música muito humana.
De vez em quando, a manha rendia economia. O ioiô vira moeda: troca-se por fita cassete gravada, por figurinha brilhante, por lanche da cantina. Troca-se o luminoso pelo de rolamento (com um acréscimo em tampinhas). Troca-se, sem preço, a técnica: “te ensino o Trapeze se você me mostra como fazer o berço sem perder a tensão”. No fim de tarde, todo mundo saía com algo que não tinha ao chegar — às vezes um objeto, quase sempre um gesto novo.
Anos depois, a corda amarela que dormia na gaveta ficou canela. O plástico perdeu o brilho gorduroso de dedos de criança. Vieram telas, notificações, avatares. O gesto do mundo mudou de direção: do pulso para o polegar. Mas, uma tarde qualquer, a gente encontra o ioiô antigo no fundo de uma caixa. Ele pesa quase nada, e pesa tudo. O corpo lembra sem aviso: laço no dedo médio, balanço, impulso, desce, dorme. O zumbido volta inteiro — e com ele, pátios, vozes, risos, um professor fingindo não ver, o colega que era um deus e que hoje vende seguros, a menina que piscou quando a torre surgiu entre as mãos, a latinha de guaraná, a luz do poste, o mundo cabendo de novo no círculo.
Talvez seja isso que o ioiô nos deixou de herança: a certeza de que a vida é uma repetição criativa. Sobe, desce, dorme, retorna; falha, ajeita, tenta outra vez. Que há truques que só se revelam quando soltamos o excesso de força. Que o espetáculo mais bonito é o da coisa simples feita com devoção. E que, nos dias bons, a gravidade aceita um café, encosta no muro e observa, divertida, a nossa pequena revolução pendurada na ponta de uma cordinha.
Se você ainda tem um em casa, experimente. Amarre sem pressa, respire fundo, incline o corpo só um pouco. Deixe o brinquedo cair — ele sabe o caminho. Quando o zummm começar, não corrija de imediato. Ouça. A infância está ali, enroscada na fibra do fio, esperando o momento certo de voltar. E quando voltar, você entenderá: não era sobre dominar um objeto; era sobre afinar a mão com o mundo — e trazê-lo de volta, redondo, para a palma.








