A metáfora “choveu na roça” pode parecer inofensiva, quase poética, mas, na realidade, esconde uma denúncia corrosiva sobre as entradas do fisiologismo que impera na política municipal de Rio Branco.
A expressão popular, usada pelo vereador Eber Machado, escancara um recorrente: a conversão da Câmara Municipal em um apêndice do Executivo, onde os votos dos parlamentares são, na prática, comprados por favores e vantagens concedidas pelo prefeito Tião Bocalom.
A tempestade que rega algumas “roças” políticas, enquanto outras disputas secas, revela um jogo de interesses no qual a independência legislativa é engolida pela subserviência ao Executivo. Vereadores que deveriam atuar como fiscais do poder municipal acabam finalizando soldados de um projeto de governo que, ao invés de buscar o bem comum, priorizam a manutenção de um grupo aliado – um verdadeiro exército de defesa dos interesses de supervisão.
O Domínio do Executivo sobre o Legislativo
A relação simbiótica entre o presidente da Câmara, Joab Lira, e Tião Bocalom é um indicativo de quanto o Legislativo pode se transformar em uma extensão do Executivo, esvaziando qualquer noção de independência parlamentar. Quando um vereador diz “não sei o que acontece nos bastidores”, mas confirma que os debates ainda acontecem, estamos diante de uma tentativa de maquiar um ambiente onde as decisões são moldadas a portas fechadas, longe dos olhos do povo.
A lógica da maioria no Parlamento, destacada por Eber Machado, expõe como o prefeito conseguiu garantir o controle sobre a Casa. A pressão política e os arranjos de bastidores fazem com que os parlamentares que gostariam de exercer seu mandato com autonomia se vejam referências de um sistema que impõe ordens sob o risco de represálias políticas. O medo de perder restrição, de não receber recursos para seus redutos eleitorais ou mesmo de cair no ostracismo político amarrado às mãos daqueles que ainda guardam alguma intenção de independência.
A Recompensa pela Submissão
Se há vereadores que mantêm uma postura independente, há outros que, segundo a denúncia de Eber Machado, se renderam às “graças” do prefeito. A contrapartida desse alinhamento seria a Secretaria de Obras Públicas, que, além da limpeza urbana, detém contratos de manutenção, asfaltamento e demais ações estruturais que, como se sabe, movimentam cifras vultosas.
Isso significa que, ao garantir o domínio sobre essa massa, o Executivo consegue distribuir favores políticos, irrigando as bases eleitorais dos vereadores aliados com serviços que garantem capital político para suas reeleições. A fórmula é clássica: quem apoia, recebe; quem resiste, é deixado de lado.
Os nomes referenciados – Leôncio Castro, Márcio Mustafá, João Paulo, Moacir Júnior e Matheus Paiva – não são apenas peças soltas nesse tabuleiro. São engrenagens de um esquema onde o interesse público se dilui em uma rede de conveniências. Se o planejamento para a distribuição de benefícios não é técnico, mas político, então as decisões que deveriam ser pautadas pela necessidade da população são tomadas conforme a conveniência do governo e aliados seus.
A Câmara ou um Cartório do Prefeito?
O grande problema desse tipo de arranjo é que a Câmara, em vez de ser um espaço de debate e fiscalização, se torna um cartório de homologação de decisões do Executivo. Projetos de lei passam sem resistência, contas do prefeito são aprovadas sem questionamento, e qualquer tentativa de investigar possíveis irregularidades é sufocada antes mesmo de ganhar força.
Quando cinco vereadores mantêm uma postura independente, enquanto a maioria se curva ao Executivo, a democracia municipal se enfraquece. O que se vê não é um jogo político legítimo, mas um teatro onde as peças já estão escritas, e os protagonistas atuam conforme a conveniência do prefeito.
O uso da Secretaria de Obras como moeda de troca escancara um esquema onde não importa se a cidade precisa de asfalto, de coleta de lixo eficiente ou de transporte urbano: o que vale é atender aos interesses dos vereadores aliados. O cidadão comum, que deveria ser o beneficiário das políticas públicas, torna-se apenas um espectador, assiste a um espetáculo onde os bastidores valem mais do que o palco.
O Custo do Favorecimento
A denúncia feita por Eber Machado não é apenas uma crítica pontual; é um alerta sobre a manipulação do papel do Legislativo municipal. Quando um grupo de vereadores passa a agir de acordo com os interesses do Executivo em troca de favores, a democracia local entra em colapso. O “choveu na roça” não é apenas uma expressão popular: é um código para o clientelismo, para a troca de favores e para a submissão de um poder que deveria ser independente.
A pergunta que fica é: até quando a população aceitará esse tipo de arranjo? Pois enquanto a chuva cai apenas nas roças de alguns, a cidade inteira continuará padecendo na seca da má gestão e da falta de transparência.








