Uma ex-técnica em enfermagem do Hospital Salvalus, investigado pela Polícia Civil após a morte de 36 bebês, disse ter visto aproximadamente uma morte por dia – ou cinco a seis por semana – na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) neonatal, durante os seis meses que trabalhou lá, em 2023. Ela pediu para não ser identificada.
“Eu vi morrer assim, muitos por semana. Então eu falo muito, um por dia, às vezes dois. Morria dentro da UTI ali. E para mim isso não é normal. Eu trabalhei em outras UTIs e não era dessa forma”, disse. Segundo ela, devido ao volume de mortes, a rotatividade de pacientes na unidade neonatal, com capacidade para 18 leitos, é elevada.
Em nota, o hospital contestou o relato da ex-funcionária e afirmou que seus registros assistenciais apontam um cenário diferente. Segundo a instituição, “as informações divulgadas não procedem e não encontram respaldo nos dados assistenciais apurados. O levantamento realizado para o período em questão apresenta um cenário distinto do relatado. Comparações entre hospitais, baseadas em números isolados, sem considerar o porte, o perfil assistencial e a gravidade dos pacientes, não permitem conclusões consistentes. Qualquer avaliação exige análise individualizada dos casos, considerando seus respectivos contextos clínicos e indicadores assistenciais”.
A própria técnica em enfermagem comparou o número de bebês mortos com outras UTIs neonatais onde trabalhou. Segundo ela, em ao menos outras duas unidades, os óbitos aconteciam a cada um ou dois meses.
“Era bem diferente. Lá não, lá toda semana tinha uma quantidade gigantesca de óbitos e eu falava para todo mundo: ‘Gente, isso não é normal…’ E aí todo mundo falava: ‘É, realmente aqui morre muito bebê’”, contou ao Metrópoles.
“Caótico e desumanizador”
Durante o período em que trabalhou no hospital, a profissional afirma ter presenciado situações que, em sua avaliação, comprometiam a assistência prestada na UTI neonatal. Segundo ela, havia problemas relacionados a infecções hospitalares, experiência de integrantes da equipe, sobrecarga de trabalho, falta de insumos e estrutura, além de dificuldades na assistência aos partos. A ex-funcionária descreveu o ambiente como “caótico” e “desumanizador”.
“Como os médicos eram muito inexperientes, quando aparecia algum tipo de bactéria, muitas vezes eles não sabiam o que fazer, eles não sabiam como tratar, não sabiam que medicação dar. Então eles iam testando”, disse a técnica de enfermagem, se referindo aos antibióticos aplicados em “rodízio”, o que aumentava a resistência das bactérias.
A sobrecarga de trabalho sobre a equipe também está entre os problemas apontados pela profissional. “Você deixar dois, três profissionais com 18 bebês e aí você tem que dar conta de tudo isso… É lógico que você não vai lavar a mão direito, é lógico que você não vai ter o cuidado ideal. Por quê? Porque você tá sobrecarregado”, afirmou.
Hospital é investigado em inquérito e órgãos de saúde
Um inquérito policial foi instaurado no 8º Distrito Policial, do Brás, em 21 de outubro, para apurar os casos. O procedimento apura inicialmente seis ocorrências, mas novas mortes têm chegado ao conhecimento da polícia.
Ao menos nove boletins de ocorrência foram registrados no 8º DP — três deles desde que o caso foi revelado pelo Metrópoles. Há ainda outros três registros, cada um em uma delegacia.
A reportagem teve acesso a 16 certidões de óbito somente desse ano. A assistente jurídica que acompanha os pais das crianças mortas disse estar em contato, ao todo, com 36 mães que perderam os filhos nos últimos meses no hospital, que integra a rede HapVida. No entanto, o número de mortes pode ser significativamente maior.
Um dos casos reportados pelo Metrópoles envolve um bebê que deu entrada com inflamação na garganta e morreu com necrose no pé, um recém-nascido que morreu após paradas cardiorrespiratórias e hemorragia e um bebê que teve infecção bacteriana no cérebro, entre outros.
“Pra todos os efeitos, na rede [HapVida] o Salvalus é o hospital referência. Então todos os casos vão para lá. Por isso, a gente não tem noção da profundidade da quantidade de óbitos”, disse a assistente jurídica Eduarda Fragnan Gomes ao Metrópoles.
A Secretaria da Segurança Pública (SSP) informou à reportagem que a “autoridade policial realiza diligências, inclusive com as oitivas de profissionais de saúde e testemunhas, análise integral dos prontuários médicos, visando esclarecer as causas das mortes”. O caso também é investigado pelo Coren-SP e pelo Cremesp.
Após a publicação do caso, a Vigilância Sanitária de São Paulo realizou uma inspeção no Hospital e Maternidade Salvalus, na última sexta-feira (23/10).
Segundo o comunicado, estiveram envolvidos na inspeção os Centros de Vigilância Sanitária (CVS) e de Vigilância Epidemiológica (CVE) estaduais, além da Vigilância Epidemiológica Municipal. A nota afirma que estão sendo avaliados 35 óbitos, embora informações obtidas pela reportagem indiquem pelo menos 36 mortes.
“As equipes avaliaram as condições de funcionamento das unidades neonatal e pediátrica, os protocolos de higienização e prevenção de infecções e o monitoramento dos indicadores assistenciais”, continua o comunicado. “Também analisaram as mudanças no perfil de atendimento, especialmente em relação aos pacientes de alta complexidade.”
A Vigilância Sanitária acrescentou, ainda, que toda a documentação coletada está em “análise prioritária” para que sejam tomadas as medidas administrativas cabíveis.
Hospital falou em “alta complexidade”
Em nota, a rede HapVida, à frente do Salvalus, afirmou que “manifesta sua profunda solidariedade às famílias e reafirma seu compromisso inegociável com a segurança dos pacientes, o respeito à vida e a qualidade da assistência”. Segundo a rede, todos os relatos são tratados com máxima seriedade e rigor técnico.
Sobre os questionamentos, esclarece que o Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) se refere a fatos de 2016, anteriores à aquisição da unidade, e que o procedimento foi arquivado. Acontecimentos de períodos distintos não podem ser associados sem evidências técnicas.
“Referência em assistência pediátrica de alta complexidade, o hospital recebe crianças com condições clínicas graves, que exigem cuidados altamente especializados. As avaliações realizadas até o momento apontam históricos clínicos distintos, sem identificação de origem infecciosa comum entre os casos examinados. Atribuir uma mesma causa a situações diferentes, sem comprovação técnica, pode gerar pânico e ampliar desnecessariamente a angústia das famílias”, disse a HapVida.
Ainda conforme a nota, “a unidade mantém avaliações contínuas da segurança assistencial e permanece à disposição das autoridades para prestar os esclarecimentos necessários, com transparência, responsabilidade e respeito às famílias”.








