As urnas de 2026 desenharam no Acre uma daquelas contradições que só a dinâmica viva da política é capaz de produzir. De um lado, a consolidação incontestável de um projeto de poder referendado pela expressiva votação de Mailza Assis, reeleita governadora ao lado da médica e ex-deputada Jéssica Sales. Pela primeira vez na história, o Palácio Rio Branco terá duas mulheres no comando simultâneo de seus dois postos mais altos. Do outro lado da Praça dos Três Poderes, porém, o reflexo é oposto: a Assembleia Legislativa do Acre (Aleac) iniciará sua próxima legislatura sem uma única mulher ocupando qualquer uma das 24 cadeiras.
Esse contraste não é apenas um dado estatístico; é o eixo central que ditará o ritmo da governabilidade, as expectativas sociais e o ponto mais sensível da gestão que se inicia.
O diferencial e o peso das expectativas: capital político próprio
O primeiro diferencial evidente desta nova fase é a legitimação das urnas. Mailza, que assumiu o governo com a desincompatibilização de Gladson Cameli em abril e acumulou no currículo a pecha inicial de ter chegado ao Senado e ao Executivo como suplente/vice, carimba agora o aval do voto popular. A vitória quebrou o rótulo de “governadora sem voto” e constrói autoridade política direta.
A presença de Jéssica Sales na vice-governadoria reforça esse arranjo. Jéssica traz a densidade eleitoral do Vale do Juruá — região tradicionalmente decisiva e sensível — e uma bagagem técnica na área da saúde. A grande expectativa pública recai sobre a capacidade da dupla de imprimir um estilo de gestão que conjugue pragmatismo administrativo com maior sensibilidade no atendimento aos serviços essenciais:
Foco em Saúde e Cuidado Social: Em um estado com gargalos severos de logística e atendimento básico no interior, a composição da chapa alimenta cobranças imediatas por soluções de saúde pública regionalizada.
Presença Institucional e Políticas Públicas: A representatividade na liderança máxima do Estado eleva a régua para o fortalecimento de redes de proteção às mulheres, segurança familiar e infância, pautas que ganham tração moral e simbólica direta sob duas líderes no topo da máquina.
A composição da Aleac: maioria na base, mas sob a ótica do “presidencialismo de coalizão”
A composição partidária da Casa favorece aritmeticamente o Palácio Rio Branco. A coligação que sustentou a chapa — ancorada pelo bloco de partidos como o Progressistas (PP), União Brasil, Republicanos e aliados — garantiu folga numérica expressiva entre os 24 parlamentares eleitos. No papel, Mailza não enfrentará uma oposição com fôlego suficiente para travar pautas orçamentárias ou reformas estruturantes logo na largada.
Contudo, favorabilidade matemática não se traduz em submissão automática. No Acre, as relações entre o Executivo e o Legislativo costumam ser hiperpersonalistas e balizadas por três variáveis constantes:
1. Emendas e espaços na máquina: A fome de espaço e a cobrança pela liberação de emendas parlamentares independem da coloração partidária; a pressão pela cota de poder dentro das secretarias continuará feroz.
2. Autonomia dos deputados veteranos: Com 16 parlamentares reeleitos, a Casa possui vícios e dinâmicas consolidadas que conhecem cada atalho da tramitação legislativa e não aceitam imposições burocráticas.
O ponto mais sensível: governar uma bancada 100% masculina
O nó górdio do mandato reside exatamente na fricção cultural e de representatividade. O Acre será o único estado do país com um parlamento estadual composto estritamente por homens a partir de 2027.
Essa assimetria coloca Mailza e Jéssica em uma trincheira delicada:
O teste de autoridade: Na política tradicional amazônica, historicamente dominada por coronelismos e caciques, qualquer demonstração de recuo pode ser confundida pela bancada com fraqueza. A governadora terá de equilibrar o diálogo político com pulso firme para não permitir que o parlamento dite os rumos do Executivo.
A blindagem de pautas de gênero e inclusão: Diante de uma Aleac exclusivamente masculina, projetos voltados a direitos de minorias, combate à violência contra a mulher e fortalecimento de redes de apoio social precisarão de uma articulação técnica e orçamentária impecável para não serem desidratados ou tratados como pautas secundárias.
A cobrança do eleitorado: Ao mesmo tempo em que a sociedade civil cobrará avanços históricos por ver duas mulheres no topo, o parlamento tenderá a priorizar obras físicas, maquinário e infraestrutura pesada. O equilíbrio orçamentário entre a “obra que dá voto ao deputado” e o “serviço social que sustenta a população” será o maior campo de negociação nos próximos quatro anos.
Conclusão
Mailza Assis e Jéssica Sales saem das urnas maiores do que entraram. O ineditismo de sua eleição escreve uma página de ruptura na história política acreana. O sucesso desse novo ciclo, contudo, dependerá da habilidade do Palácio Rio Branco em transformar a força simbólica de sua vitória em habilidade cirúrgica de negociação — liderando com firmeza um tabuleiro político que, dentro da Assembleia, ainda resiste em termos de pluralidade.








