Quem passa mais de duas décadas cobrindo a editoria de polícia no Acre aprende a reconhecer um padrão cruel antes mesmo que a perícia recolha as cápsulas no chão. Os boletins de ocorrência que chegam às redações nas madrugadas trazem quase sempre o mesmo roteiro previsível: ameaças prévias registradas em papel timbrado, vizinhos que já haviam escutado gritos, o desgaste invisível de quem buscou a lei antes de tombar. Ao longo desses mais de vinte anos vendo corpos de mulheres recolhidos pelo rabecão em bairros periféricos e no interior do nosso estado, testemunhei o endurecimento legislativo de um país que formulou leis exemplares, mas que ainda assiste à sua execução morrer na poeira burocrática dos tribunais e delegacias.
A execução a tiros da médica Elyne de Assis Nogueira, de 39 anos, em Brasiléia, no dia 2 de novembro de 2026, é o retrato mais doloroso e pedagógico dessa falência institucional. Elyne não era uma cifra anônima. Teve a coragem de denunciar, preencheu todos os formulários e seguiu minuciosamente o manual de sobrevivência desenhado pelo Estado: obteve medidas protetivas da Lei Maria da Penha, o acusado de ser o mandante — seu ex-companheiro, advogado, ex-vereador e procurador municipal — usava tornozeleira eletrônica e ela portava o botão do pânico, dispositivo acionado poucas horas antes de sua morte.
Mais alarmante ainda: o Ministério Público do Estado do Acre (MPAC) pediu a prisão preventiva do investigado por duas vezes consecutivas, apontando o descumprimento de cautelares e o risco iminente de morte. Ambas foram indeferidas pelo Judiciário. Se uma médica, munida de amparo legal, monitoramento tecnológico e alertas reiterados de promotores de Justiça, não conseguiu ter sua vida resguardada, qual é a mensagem transmitida às milhares de mulheres vulneráveis, seringueiras, ribeirinhas e periféricas do Vale do Acre e do Juruá?
O Acre convive há anos com a vergonha estatística de figurar nas primeiras posições do ranking de feminicídios do Brasil, segundo dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública e do Atlas da Violência. A morte violenta de mulheres em território acreano é uma epidemia crônica enraizada no coronelismo, na condescendência com o machismo institucional e na crença de que a violência doméstica pertence ao domínio da intimidade doméstica.
É sobre essa terra machucada que se assenta o maior paradoxo político da história recente do estado. Com mais de 52% de seu eleitorado composto por mulheres, o Acre consagrou uma vitória histórica nas urnas de 2026 ao eleger uma chapa 100% feminina para o Poder Executivo: Mailza Assis como governadora e Jéssica Sales como vice-governadora. Trata-se da primeira mulher eleita diretamente para o Palácio Rio Branco, com um compromisso explícito de campanha: zerar o feminicídio e criar o Hospital da Mulher.
No entanto, o mesmo eleitorado que alçou duas mulheres ao comando do governo estadual desenhou uma Assembleia Legislativa do Estado do Acre (ALEAC) absolutamente monocromática: a partir de 2027, todos os 24 parlamentares estaduais serão homens. O Acre será a única unidade federativa do país sem nenhuma mulher ocupando uma cadeira legislativa.
Essa composição escancara uma balança de forças tensionada. De um lado, duas mulheres que personificam a esperança de respostas enérgicas no enfrentamento à violência de gênero. Do outro, um plenário integralmente masculino, cuja sensibilidade orçamentária e prioridade política para a causa das mulheres ainda estão por ser testadas.
O que esperar desse tabuleiro?
A cobrança sobre Mailza Assis e Jéssica Sales é imediata e intransigente. O plano de governo não poderá se limitar a campanhas publicitárias ou a cerimônias protocolares. O combate ao feminicídio no Acre exige investimento massivo nas Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAMs) com funcionamento ininterrupto de 24 horas nos 22 municípios, ampliação real das patrulhas especializadas da Polícia Militar, capacitação contínua das forças policiais e, acima de tudo, articulação de alto nível com o Judiciário e o Ministério Público para auditar protocolos de risco. O botão do pânico não pode ser um mero acessório de geolocalização se não houver tempo de resposta tático e agentes prontos para desarmar a ameaça.
Do parlamento exclusivamente masculino, a sociedade acreana não aceitará o silêncio de praxe ou votos de pesar após cada caixão que desce à cova. Os 24 deputados precisarão provar que representam o povo que os elegeu — cuja maioria é feminina — votando dotações orçamentárias expressivas no Plano Plurianual e na Lei Orçamentária Anual voltadas à rede de acolhimento e proteção social. Sem verba carimbada, o discurso contra a violência não passa de retórica eleitoral.
O assassinato de Elyne de Assis expôs as vísceras de uma engrenagem que subestima o ódio patriarcal e superestima a eficácia de ordens judiciais emitidas contra quem se sente acima da lei. O Acre assiste a um divisor de águas: ter duas mulheres à frente do Estado é um marco histórico, mas sua grandeza só será real quando nenhuma mulher mais for morta com uma medida protetiva dobrada na bolsa. A balança do poder está posta; cabe às novas lideranças e à cobrança vigilante da sociedade garantir que o peso da justiça finalmente prevaleça sobre a impunidade.








