A grandiosidade do nome “1001 Dignidades” prometia um marco histórico para a habitação popular em Rio Branco. No entanto, o que se vê na prática é um enredo confuso, cheio de contradições e retrocessos administrativos, que transformou um sonho em um espetáculo de promessas não cumpridas e planejamento equivocado.
O anúncio inicial, em setembro de 2022, vendia uma narrativa utópica: a construção de 1001 casas em um único dia, utilizando madeira reaproveitada e financiadas exclusivamente com recursos próprios do município. O projeto soava mais como um evento publicitário do que como uma política habitacional sólida.
A ideia de mobilizar 10 mil trabalhadores para erguer um bairro inteiro em 24 horas já denunciava o amadorismo da proposta, pois desconsiderava aspectos técnicos fundamentais da engenharia civil, como o tempo necessário para fundação, acabamento e estruturação de um conjunto habitacional digno.
O primeiro sinal de colapso da promessa surgiu com a redução do número de casas para 762 unidades. O motivo? A Prefeitura alegou que teve de abrir mão dos terrenos onde as casas seriam erguidas para receber investimentos do Governo Federal.
Ora, se a Prefeitura realmente possuía os terrenos para construir 1001 casas com recursos próprios, como se explica a necessidade de ceder esses mesmos terrenos para um programa habitacional federal? Isso revela uma clara inconsistência na gestão e planejamento do projeto, além da falta de transparência na administração dos recursos.
O adiamento da entrega, por razões eleitorais, reforça a suspeita de que o programa nunca passou de uma peça de marketing político. A justificativa de que as residências poderiam ser construídas ainda este ano, mas que sua entrega será empurrada para depois das eleições, evidencia que a real preocupação da gestão não é o bem-estar das famílias em áreas de risco, mas sim a conveniência eleitoral.
Adiar a entrega para evitar infrações às regras eleitorais não esconde o fracasso logístico do projeto, apenas posterga o vexame público.
A parceria com o Governo Federal para a construção de mais 685 imóveis, que serão financiados pelos beneficiários, também demonstra um desvio de foco da promessa inicial.
O compromisso de fornecer habitação gratuita para os mais vulneráveis foi gradativamente diluído em um modelo de financiamento que, embora tenha condições facilitadas, ainda impõe ônus financeiro às vítimas das alagações.
Além disso, a decisão de destinar 50% das 416 unidades do programa municipal para funcionários da Prefeitura que ganham até três salários mínimos levanta questionamentos sobre prioridades e critérios de seleção.
Embora seja justo garantir moradia a servidores de baixa renda, esse recorte reduz significativamente o impacto social para a população mais vulnerável, que deveria ser o foco principal do projeto.
Por fim, o investimento de R$ 40 milhões para um programa que encolheu, sofreu alterações substanciais e teve sua entrega postergada gera dúvidas sobre a eficiência do gasto público. Se inicialmente se falava em 1001 casas construídas rapidamente, agora se fala em um número reduzido de unidades, com prazos incertos e regras modificadas no meio do caminho.
O projeto “1001 Dignidades” prometia transformar a realidade habitacional de Rio Branco, mas se tornou um reflexo da falta de planejamento e transparência na gestão pública.
O que deveria ser um marco social se revelou uma estratégia política disfarçada de benevolência, enquanto as famílias mais necessitadas continuam vivendo em áreas de risco, esperando por uma dignidade que, por enquanto, permanece apenas no nome do programa.








