Enquanto a saúde desmorona, a educação cambaleia e as estradas parecem cenários de filmes pós-apocalípticos, os deputados estaduais do Acre decidiram que a prioridade do dia era bater boca sobre a tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023. Sim, em vez de discutirem algo que mudasse a vida do cidadão que acorda de madrugada para pegar um ônibus lotado e enfrenta filas quilométricas nos postos de saúde, preferiram se engalfinhar feito cão e gato em um duelo de egos inflados e discursos inflamados.

De um lado, Arlenilson Cunha (PL), fervoroso defensor da anistia, partido do ex-presidente Jair Bolsonaro e com uma investigação da PGR pendurada no pescoço como um colar de espinhos. Do outro, Edvaldo Magalhães (PCdoB), que, com dedo em riste e tom professoral, bradava contra o que chamou de ‘golpe meticulosamente planejado’. O resultado? Um espetáculo que faria inveja aos antigos coliseus romanos. Só faltou alguém vender pipoca nos corredores da Assembleia.
Arlenilson, num surto de indignação seletiva, levantou-se da cadeira e declarou:
— Um golpe que nunca existiu! O que existe é uma narrativa golpista! Anistia já! Precisamos pacificar o país! As penas são desproporcionais!
Os apoiadores do deputado, devidamente posicionados nas redes sociais, já ensaiavam a hashtag #AnistiaJá, enquanto o próprio falava de pacificação com a mesma serenidade de quem atiça um vespeiro com vara curta.

Edvaldo, que não nasceu ontem, retrucou com gosto:
— Golpe inexistente? O plano era eliminar o presidente da República, o vice e um ministro da Suprema Corte! As velhinhas de batom não estavam ali rezando o terço. Querem anistia para Bolsonaro! Cadeia para os golpistas!
E, com isso, a temperatura subiu mais do que o asfalto derretendo no meio-dia acreano. Os ânimos se exaltaram, dedos foram apontados, vozes se sobrepuseram e, no fim das contas, o cidadão que paga imposto para sustentar esse circo legislativo saiu com as mesmas soluções de sempre: nenhuma.
O Acre segue com seus problemas urgentes, mas a política local prefere encenar dramas de Brasília em sua versão provinciana. O povo, que só queria que a rua fosse asfaltada e que o hospital tivesse gaze e esparadrapo, segue assistindo de camarote discursos vazios.
O Legislativo estadual, cada vez mais, parece um microcosmo do teatro nacional: debates estéreis, egos inflados e um distanciamento abissal dos problemas concretos da sociedade. No fim, o que se viu foi um espetáculo vergonhoso de histrionismo e conveniência política. O Acre precisa de estadistas, mas, infelizmente, tem apenas atores ruins encenando um drama barato.








