Em 15 de março de 1985, José Sarney subiu a rampa do Palácio do Planalto, assumindo a presidência da República e selando a transição de um Brasil marcado pelos 21 anos de ditadura militar para um futuro incerto, mas profundamente desejado: o da democracia. Àquela data, o país se despedia de um capítulo sombrio de sua história e começava a escrever novas páginas, com o coração batendo forte na esperança de um amanhã livre e mais justo. No entanto, a ascensão de Sarney à presidência não foi apenas uma formalidade política, mas um enredo repleto de controvérsias, enigmas e decisões tomadas à margem da constituição, que, naquele momento, parecia mais uma fonte de insegurança do que de soluções.
O plano original para a mudança de governo já estava traçado. Tancredo Neves, eleito indiretamente em 15 de janeiro de 1985, era a face da renovação e da esperança. Porém, o destino — aquele que sempre joga com a história — impôs um obstáculo fatal. Tancredo foi hospitalizado na véspera de sua posse para uma cirurgia de emergência, e sua morte, em 21 de abril de 1985, selaria o caminho tortuoso para Sarney, que assumiria, sem o brilho do sonho de transformação popular, mas com a responsabilidade de liderar um Brasil em crise.
A dúvida pairava sobre o poder. A Constituição de 1967 não previra um cenário como aquele: o presidente eleito não poderia assumir. O que fazer? Em meio a uma noite cheia de incertezas, os líderes da Nova República, em uma reunião de urgência, decidiram que José Sarney, o então vice-presidente eleito, assumiria o cargo. A decisão não foi unânime, nem clara; foi um jogo de interpretação constitucional, uma analogia improvisada, que gerou debates acalorados. Às 3 horas da madrugada, após muitos encontros e desentendimentos, uma ata foi lavrada, e Sarney foi convidado a tomar posse.
Mas antes que o novo presidente se sentasse na cadeira presidencial, mais um episódio inusitado: o ministro do Exército, Walter Pires, tentou barrar a posse de Sarney. Ele ameaçou agir com força militar para impedir que o processo seguisse seu curso. A tensão era palpável, o país ainda temia um golpe de estado, mas Sarney, com calma e habilidade, soube manobrar a situação, contando com a ajuda de aliados no Congresso, que, de forma estratégica, exoneraram Pires, deixando-o sem poder de decisão.
E, finalmente, o grande dia chegou: 15 de março de 1985. Porém, o Brasil que acordou sonhando com a chegada de Tancredo acordou com Sarney, um político que, embora já tivesse sua própria história de aliança com os militares, representava também a esperança de transição. A dúvida era: ele honraria os compromissos de redemocratização que Tancredo havia defendido incansavelmente?
Sarney, que teve seu nome atrelado ao regime militar por sua filiação à Arena — o partido que sustentava a ditadura —, agora era a peça-chave da transição. Seu papel estava longe de ser claro para todos, e a tensão política era grande. Sua aliança com Tancredo Neves durante a eleição indireta, por mais que fosse pragmática, era também um reflexo do contexto político daquele momento: a transição seria lenta, cheia de ajustes e ambiguidades. O Brasil estava deixando para trás o regime militar, mas sem uma ruptura abrupta. A vitória de Sarney, ao lado de Tancredo, foi possível graças a uma aliança estratégica com o PDS, o partido da oposição consentida pelos militares, que, no fim das contas, ajudou a superar o bloqueio imposto pelas forças armadas.
E o Brasil seguiu em frente, com Sarney na presidência, tendo pela frente um dos maiores desafios de sua história recente: dar fim a uma inflação galopante e uma dívida externa monstruosa, heranças da política econômica da ditadura. O “milagre econômico” dos anos 1970 cobrou sua conta, e a inflação chegou a cifras alarmantes de 224% em 1984. A crise econômica bateu forte, e, nos bastidores, até mesmo os parlamentares começaram a questionar a continuidade do pagamento da dívida externa, defendendo uma auditoria sobre os contratos com credores estrangeiros.
A Nova República não nascia sem dificuldades, mas ela avançava. Entre 1985 e 1990, o governo Sarney enfrentaria um ciclo de pacotes econômicos, mudanças na legislação política e, acima de tudo, a convocação da Assembleia Nacional Constituinte, que daria os passos finais para enterrar o “entulho autoritário” e permitir a reinvenção da democracia brasileira. A Constituição de 1988, promulgada sob o governo Sarney, seria a base para o Brasil democrático, sem os pesadelos da ditadura.
Foi uma transição difícil, marcada por reviravoltas e desafios, mas essencial para que o Brasil, 40 anos atrás, passasse a escrever um novo capítulo de sua história. O dia 15 de março de 1985, quando Sarney assumiu a presidência, não foi apenas um novo início, mas o marco de uma luta que levou décadas para ser travada e que, embora longe de ser fácil, selou a vitória da democracia. O Brasil que acordou sob o signo da transição ainda tinha muito a caminhar, mas estava definitivamente no caminho da liberdade.
Da redação








