domingo, outubro 25, 2026
Rota Norte Notiícias
  • HOME
  • Últimas Notícias
  • Política
    Vorcaro e sócio assinaram compra do Correio Braziliense: “A gente assumiu o editorial”

    Vorcaro e sócio assinaram compra do Correio Braziliense: “A gente assumiu o editorial”

    Helicóptero vindo da Venezuela é interceptado e destruído após ação da FAB

    Helicóptero vindo da Venezuela é interceptado e destruído após ação da FAB

    36 bebês morrem em hospital e Polícia Civil abre investigação

    36 bebês morrem em hospital e Polícia Civil abre investigação

    Ministro do TSE impede Nunes Marques de derrubar “Exército do Lula”

    Ministro do TSE impede Nunes Marques de derrubar “Exército do Lula”

  • Polícia
    Acre contabiliza queda nas apreensões de drogas e 432 armas recolhidas em 2026

    Acre contabiliza queda nas apreensões de drogas e 432 armas recolhidas em 2026

    Manuseio de madeira perto de rede elétrica causa morte de idoso na zona rural

    Manuseio de madeira perto de rede elétrica causa morte de idoso na zona rural

    Acidente entre motocicletas é registrado em Sena Madureira

    Acidente entre motocicletas é registrado em Sena Madureira

    Pastor é encontrado morto após três dias em carro no Segundo Distrito de Rio Branco

    Pastor é encontrado morto após três dias em carro no Segundo Distrito de Rio Branco

  • Empregos e Concursos
  • Mundo
No Result
View All Result
  • HOME
  • Últimas Notícias
  • Política
    Vorcaro e sócio assinaram compra do Correio Braziliense: “A gente assumiu o editorial”

    Vorcaro e sócio assinaram compra do Correio Braziliense: “A gente assumiu o editorial”

    Helicóptero vindo da Venezuela é interceptado e destruído após ação da FAB

    Helicóptero vindo da Venezuela é interceptado e destruído após ação da FAB

    36 bebês morrem em hospital e Polícia Civil abre investigação

    36 bebês morrem em hospital e Polícia Civil abre investigação

    Ministro do TSE impede Nunes Marques de derrubar “Exército do Lula”

    Ministro do TSE impede Nunes Marques de derrubar “Exército do Lula”

  • Polícia
    Acre contabiliza queda nas apreensões de drogas e 432 armas recolhidas em 2026

    Acre contabiliza queda nas apreensões de drogas e 432 armas recolhidas em 2026

    Manuseio de madeira perto de rede elétrica causa morte de idoso na zona rural

    Manuseio de madeira perto de rede elétrica causa morte de idoso na zona rural

    Acidente entre motocicletas é registrado em Sena Madureira

    Acidente entre motocicletas é registrado em Sena Madureira

    Pastor é encontrado morto após três dias em carro no Segundo Distrito de Rio Branco

    Pastor é encontrado morto após três dias em carro no Segundo Distrito de Rio Branco

  • Empregos e Concursos
  • Mundo
No Result
View All Result
Rota Norte Notiícias
No Result
View All Result

A liturgia do Bodó

Rota Norte Notícias Por Rota Norte Notícias
Fonte: Pitter Lucena
22/11/2025
em No Tempo do Ronca
A liturgia do Bodó
528
COMPART.
641
VISUALIZAÇÕES
WhatsappFacebookCompartilhar no X

Era do tempo do ronca, sim senhor — tempo em que o relógio tinha penas e cantava nos beirais, e o primeiro aviso do dia vinha na língua fria do orvalho, lambendo o terreiro antes do sol. Nas beiras de rio, onde o mundo começa em bruma, nos seringais com cheiro de leite ferido, nas colônias de barro amassado por pés descalços, a manhã se acendia com um rito que não vinha em livro nenhum. E no centro desse rito, coroado sem coroa, reinava o soberano miúdo da cozinha cabocla: o bodó.

Bodó — palavra redonda, de vogais que derretem na boca como açúcar na chapa. Não era apenas bolinho: era ponte entre o estômago e o coração, senha para abrir o dia, oração de quem sabe amar com farinha. Na mesa pobre, ele tinha a dignidade dos milagres discretos. Bastava o tremor do óleo na frigideira de ferro, um chiado que lembrava cigarra e chuva no telhado, para que a casa inteira parasse: até o relógio de parede cochilava um segundo, a fim de ouvir.

A receita, se é que lhe cabe esse nome, não se escrevia: passava. De mão a mão, de voz a ouvido, de olho a olho. Farinha peneirada na palma que conhecia os grumos pelo tato; um tanto de fermento que a unha media, medindo também a pressa do fogo; água morna “de conversa” — nem fria, nem ferveção —; sal que o céu da boca aprovava com ponta de dedo. E o ingrediente invisível, que não se vende em saco: cuidado. A massa se juntava numa bacia de esmalte lascada, e o gesto que a mexia tinha algo de reza: giro largo, pausa, respiro, mais giro, até o ponto que só a experiência reconhece — maciez com pulso, firmeza que cede.

Enquanto a massa descansava feito criança no colo, a casa vestia a manhã. O pai afinava o facão na pedra de amolar; a mãe soprava a cinza para acender a lenha; o vento passava a mão nos varais e fazia seus pequenos concertos. O rádio, quando havia, cismava um baião pelas frestas de ferrugem. E a panela preta de tantas frituras, rainha com manto de fuligem, recebia a benção do fogo. O óleo, ao primeiro calor, brilhava como lagoa de cobre.

Entravam então as colheres gêmeas, uma entalhando a massa da outra, lançando pequenas luas brancas ao destino quente. No exato segundo em que a primeira lua tocava o óleo, o mundo fazia psssss — assinatura sonora do que presta. Os discos pálidos mergulhavam e subiam, davam voltinhas de alegria, inflavam como peitos orgulhosos, douravam do miolo para a casca, até ganharem cor de tarde boa. A cozinheira, senhora dos instantes, virava cada bodozinho com o dorso da colher, sem feri-lo — gesto curto, autoral —, e o tabuleiro de esmaltar azul ia recebendo os recém-nascidos sobre papel pardo, que sugava excessos e entregava perfume.

Do lado de fora, o coro menor afinava as vozes. Crianças em pontas de pé nas frestas da porta, nariz em flor, olhos do tamanho das janelas. O primeiro bodó era título, e o escolhido — quase sempre um acaso que a dona da casa fingia que não era — recebia a hóstia laica numa palma estendida, aprendendo desde cedo que felicidade também queima a língua. O “hummm” que se erguia depois disso não tinha dicionário: era som de lembrança futura ficando pronta.

Mas o bodó não alimentava só de gordura e farinha: alimentava de história. A cozinha virava terreiro de memória, e as mulheres que governavam o fogo puxavam do baú a literatura oral da vizinhança. O boto de chapéu, para esconder o orifício que o denunciava; a onça que falava com vozes de primo distante; o Caboclo d’Água, senhor de remanso, ciumento das moças que riam alto na beira. Cada fornada era capítulo, e cada capítulo vinha servido com açúcar de palavra. As crianças, boca cheia e pele arrepiada, aprendiam que o mundo é maior do que o que o olho alcança — e que a imaginação tem dentes.

Havia uma geografia do cheiro que só as casas de manhã conhecem. O rastro do bodó saía em espiral pela janela, descia a ribanceira, subia o coqueiro, batia na cerca de arame e voltava. Os vizinhos, pescados por narina, apareciam: “só vim ver se vocês tão vivos”, diziam por educação, e era mentira de piedade bonita. Sempre cabia mais um. A dona da casa suspirava aquele suspiro que é metade cansaço, metade alegria, e fazia uma rodada a mais, varando o comprimento do dia. Comer junto, ali, tinha outro nome: certidão de pertencimento.

E havia ciência, por baixo do encanto. Sabia-se que bodó com óleo novo é vaidoso e não presta; é preciso que a gordura tenha memórias de outras panelas para ensinar respeito à massa. Sabia-se que chiar alto demais é sinal de fogo pressuroso — e pressa, nessa liturgia, é pecado. Sabia-se que, se o vento corre de sul para nordeste, vale moldar a colher de um jeito, e, se muda, de outro, porque a brisa conversa com o fogo e muda o humor do óleo. Sabia-se que bodó não espera: ele é de agora. Para o depois há pão dormido, há bolo de fubá, há saudade. O bodó, como as notícias boas, pede consumo imediato.

Entre uma leva e outra, as conversas sovavam o cotidiano. Falava-se da seca que encardira as margens, da cobra que atravessara a estrada com a majestade dos reis, do patrão que prometera aumento e mandara recado, da novena de logo mais sem padre mas com mil fé. A vida, ali, cabia no tamanho da boca: ia sendo repartida como pão, uma frase de cada vez. Quem estava triste recebia o primeiro pedaço; quem estava de aniversário ganhava açúcar no topo; quem chegava da roça com a camisa grudada de trabalho ganhava dois, um para o corpo, outro para a alma.

Chegava também a hora solene do café preto. As canecas de ágata, com suas cicatrizes brancas nos lábios, se alinhavam. O café caía grosso, correnteza escura, espalhando nos bodozinhos um brilho de benção. “Melhora qualquer tristeza”, dizia a avó, e era ciência exata. O pão de milho, quando existia, fazia vizinhança no prato com os redondos dourados; o queijo de coalho, se havia sobrado da véspera, cortava sua parte; a manteiga, quando aparecia, se escondia no miolo quente e derretia como perdão.

Quando o sol subia o suficiente para comprar todos os barulhos, vinha a última leva. A cozinheira então deixava um defeito intencional em um ou outro — um mais torto, um com orelha, um com umbigo de massa — só para que as crianças, detectores de singularidades, tivessem assunto até a hora do banho no igarapé. Havia os ritos menores: quem pegava o de orelha tinha o direito de escolher a história da tarde; quem achava o com umbigo, assoprava o vento para chover às três; quem acertava a conta de quantos foram fritos ganhava uma moeda curta para a venda.

Muito adiante, no asfalto onde o galo perdeu o cargo para o relógio e o vento para a sirene, deram ao bodó nome de cidade: bolinho de chuva. Povoaram-no de açúcar e canela, batizaram-no de sobremesa, puseram-no em prato fundo com guardanapo de renda e colher de inox, ensinaram-no a posar para foto. Ficou elegante, sim; ficou correto. Mas perdeu qualquer coisa — um rumor de fogão, um sotaque de lenha, um riso de janela. Não faz mal: o bodó verdadeiro não tem ciúme. Sabe que cada lugar batiza o que ama como pode. E ele, o do mato, o da beira do rio, o do chão de barro, continua exercendo seu ofício em quem o provou quente: reaparece em sonhos olfativos no meio do ônibus, surge num estalo de panela ao abrir-se uma fritura qualquer, visita a língua em noites compridas.

Se alguém quiser reencontrá-lo, o caminho é simples e não passa por receita. Começa por desacelerar o relógio: trocar o despertador de vidro pelo rumor das folhas, a minutagem da agenda pela cadência do fogo. Depois, aceitar que medida boa mora nos dedos. Lavar a bacia de esmalte e, se não houver, usar o que houver — porque o bodó gosta é de improviso. Procurar no armário a frigideira mais antiga, aquela que já ouviu gritos e confidências, e chamar, para a beira do fogão, quem sabe contar uma história sem celular na mão. O resto, ele sabe fazer sozinho.

E quando vier o primeiro chiado, não se esqueça do que as avós sabiam de cor: bodó se come de pé, com pressa de criar lembrança. Sopra uma vez, morde, queima a língua, ri. Ofereça ao vizinho, ensine à criança a reconhecer um ponto pelo cheiro, deixe um defeito pro riso. E, se sobrar algum, guarde num prato de esmalte azul, com pano cobrindo — não porque ele vai durar, mas porque algumas coisas precisam dormir bonitas.

No fim da manhã, quando a casa ficar com cheiro de memória e o quintal, com marcas de farelo, quando as conversas tiverem lavado o dia como chuva de verão lava telhado, haverá no peito um peso bom — sustança. É o bodó trabalhando, religião pequena de farinha e fogo, afirmando com sua teologia simples que o essencial cabe na palma da mão. E, enquanto houver alguém que, ao ouvir um pssss, sorria antes de provar, o tempo do ronca seguirá, por baixo do asfalto, dizendo sua missa baixinha.

  • HOME
  • Últimas Notícias
  • Política
  • Polícia
  • Empregos e Concursos
  • Mundo
Fale Conosco:
contato@rotanortenoticias.com.br

© 2025 - Rota Norte Notícias

No Result
View All Result
  • HOME
  • Últimas Notícias
  • Política
  • Polícia
  • Empregos e Concursos
  • Mundo

© 2025 - Rota Norte Notícias