Era do tempo do ronca, sim senhor — tempo em que o relógio tinha penas e cantava nos beirais, e o primeiro aviso do dia vinha na língua fria do orvalho, lambendo o terreiro antes do sol. Nas beiras de rio, onde o mundo começa em bruma, nos seringais com cheiro de leite ferido, nas colônias de barro amassado por pés descalços, a manhã se acendia com um rito que não vinha em livro nenhum. E no centro desse rito, coroado sem coroa, reinava o soberano miúdo da cozinha cabocla: o bodó.
Bodó — palavra redonda, de vogais que derretem na boca como açúcar na chapa. Não era apenas bolinho: era ponte entre o estômago e o coração, senha para abrir o dia, oração de quem sabe amar com farinha. Na mesa pobre, ele tinha a dignidade dos milagres discretos. Bastava o tremor do óleo na frigideira de ferro, um chiado que lembrava cigarra e chuva no telhado, para que a casa inteira parasse: até o relógio de parede cochilava um segundo, a fim de ouvir.
A receita, se é que lhe cabe esse nome, não se escrevia: passava. De mão a mão, de voz a ouvido, de olho a olho. Farinha peneirada na palma que conhecia os grumos pelo tato; um tanto de fermento que a unha media, medindo também a pressa do fogo; água morna “de conversa” — nem fria, nem ferveção —; sal que o céu da boca aprovava com ponta de dedo. E o ingrediente invisível, que não se vende em saco: cuidado. A massa se juntava numa bacia de esmalte lascada, e o gesto que a mexia tinha algo de reza: giro largo, pausa, respiro, mais giro, até o ponto que só a experiência reconhece — maciez com pulso, firmeza que cede.
Enquanto a massa descansava feito criança no colo, a casa vestia a manhã. O pai afinava o facão na pedra de amolar; a mãe soprava a cinza para acender a lenha; o vento passava a mão nos varais e fazia seus pequenos concertos. O rádio, quando havia, cismava um baião pelas frestas de ferrugem. E a panela preta de tantas frituras, rainha com manto de fuligem, recebia a benção do fogo. O óleo, ao primeiro calor, brilhava como lagoa de cobre.
Entravam então as colheres gêmeas, uma entalhando a massa da outra, lançando pequenas luas brancas ao destino quente. No exato segundo em que a primeira lua tocava o óleo, o mundo fazia psssss — assinatura sonora do que presta. Os discos pálidos mergulhavam e subiam, davam voltinhas de alegria, inflavam como peitos orgulhosos, douravam do miolo para a casca, até ganharem cor de tarde boa. A cozinheira, senhora dos instantes, virava cada bodozinho com o dorso da colher, sem feri-lo — gesto curto, autoral —, e o tabuleiro de esmaltar azul ia recebendo os recém-nascidos sobre papel pardo, que sugava excessos e entregava perfume.
Do lado de fora, o coro menor afinava as vozes. Crianças em pontas de pé nas frestas da porta, nariz em flor, olhos do tamanho das janelas. O primeiro bodó era título, e o escolhido — quase sempre um acaso que a dona da casa fingia que não era — recebia a hóstia laica numa palma estendida, aprendendo desde cedo que felicidade também queima a língua. O “hummm” que se erguia depois disso não tinha dicionário: era som de lembrança futura ficando pronta.
Mas o bodó não alimentava só de gordura e farinha: alimentava de história. A cozinha virava terreiro de memória, e as mulheres que governavam o fogo puxavam do baú a literatura oral da vizinhança. O boto de chapéu, para esconder o orifício que o denunciava; a onça que falava com vozes de primo distante; o Caboclo d’Água, senhor de remanso, ciumento das moças que riam alto na beira. Cada fornada era capítulo, e cada capítulo vinha servido com açúcar de palavra. As crianças, boca cheia e pele arrepiada, aprendiam que o mundo é maior do que o que o olho alcança — e que a imaginação tem dentes.
Havia uma geografia do cheiro que só as casas de manhã conhecem. O rastro do bodó saía em espiral pela janela, descia a ribanceira, subia o coqueiro, batia na cerca de arame e voltava. Os vizinhos, pescados por narina, apareciam: “só vim ver se vocês tão vivos”, diziam por educação, e era mentira de piedade bonita. Sempre cabia mais um. A dona da casa suspirava aquele suspiro que é metade cansaço, metade alegria, e fazia uma rodada a mais, varando o comprimento do dia. Comer junto, ali, tinha outro nome: certidão de pertencimento.
E havia ciência, por baixo do encanto. Sabia-se que bodó com óleo novo é vaidoso e não presta; é preciso que a gordura tenha memórias de outras panelas para ensinar respeito à massa. Sabia-se que chiar alto demais é sinal de fogo pressuroso — e pressa, nessa liturgia, é pecado. Sabia-se que, se o vento corre de sul para nordeste, vale moldar a colher de um jeito, e, se muda, de outro, porque a brisa conversa com o fogo e muda o humor do óleo. Sabia-se que bodó não espera: ele é de agora. Para o depois há pão dormido, há bolo de fubá, há saudade. O bodó, como as notícias boas, pede consumo imediato.
Entre uma leva e outra, as conversas sovavam o cotidiano. Falava-se da seca que encardira as margens, da cobra que atravessara a estrada com a majestade dos reis, do patrão que prometera aumento e mandara recado, da novena de logo mais sem padre mas com mil fé. A vida, ali, cabia no tamanho da boca: ia sendo repartida como pão, uma frase de cada vez. Quem estava triste recebia o primeiro pedaço; quem estava de aniversário ganhava açúcar no topo; quem chegava da roça com a camisa grudada de trabalho ganhava dois, um para o corpo, outro para a alma.
Chegava também a hora solene do café preto. As canecas de ágata, com suas cicatrizes brancas nos lábios, se alinhavam. O café caía grosso, correnteza escura, espalhando nos bodozinhos um brilho de benção. “Melhora qualquer tristeza”, dizia a avó, e era ciência exata. O pão de milho, quando existia, fazia vizinhança no prato com os redondos dourados; o queijo de coalho, se havia sobrado da véspera, cortava sua parte; a manteiga, quando aparecia, se escondia no miolo quente e derretia como perdão.
Quando o sol subia o suficiente para comprar todos os barulhos, vinha a última leva. A cozinheira então deixava um defeito intencional em um ou outro — um mais torto, um com orelha, um com umbigo de massa — só para que as crianças, detectores de singularidades, tivessem assunto até a hora do banho no igarapé. Havia os ritos menores: quem pegava o de orelha tinha o direito de escolher a história da tarde; quem achava o com umbigo, assoprava o vento para chover às três; quem acertava a conta de quantos foram fritos ganhava uma moeda curta para a venda.
Muito adiante, no asfalto onde o galo perdeu o cargo para o relógio e o vento para a sirene, deram ao bodó nome de cidade: bolinho de chuva. Povoaram-no de açúcar e canela, batizaram-no de sobremesa, puseram-no em prato fundo com guardanapo de renda e colher de inox, ensinaram-no a posar para foto. Ficou elegante, sim; ficou correto. Mas perdeu qualquer coisa — um rumor de fogão, um sotaque de lenha, um riso de janela. Não faz mal: o bodó verdadeiro não tem ciúme. Sabe que cada lugar batiza o que ama como pode. E ele, o do mato, o da beira do rio, o do chão de barro, continua exercendo seu ofício em quem o provou quente: reaparece em sonhos olfativos no meio do ônibus, surge num estalo de panela ao abrir-se uma fritura qualquer, visita a língua em noites compridas.
Se alguém quiser reencontrá-lo, o caminho é simples e não passa por receita. Começa por desacelerar o relógio: trocar o despertador de vidro pelo rumor das folhas, a minutagem da agenda pela cadência do fogo. Depois, aceitar que medida boa mora nos dedos. Lavar a bacia de esmalte e, se não houver, usar o que houver — porque o bodó gosta é de improviso. Procurar no armário a frigideira mais antiga, aquela que já ouviu gritos e confidências, e chamar, para a beira do fogão, quem sabe contar uma história sem celular na mão. O resto, ele sabe fazer sozinho.
E quando vier o primeiro chiado, não se esqueça do que as avós sabiam de cor: bodó se come de pé, com pressa de criar lembrança. Sopra uma vez, morde, queima a língua, ri. Ofereça ao vizinho, ensine à criança a reconhecer um ponto pelo cheiro, deixe um defeito pro riso. E, se sobrar algum, guarde num prato de esmalte azul, com pano cobrindo — não porque ele vai durar, mas porque algumas coisas precisam dormir bonitas.
No fim da manhã, quando a casa ficar com cheiro de memória e o quintal, com marcas de farelo, quando as conversas tiverem lavado o dia como chuva de verão lava telhado, haverá no peito um peso bom — sustança. É o bodó trabalhando, religião pequena de farinha e fogo, afirmando com sua teologia simples que o essencial cabe na palma da mão. E, enquanto houver alguém que, ao ouvir um pssss, sorria antes de provar, o tempo do ronca seguirá, por baixo do asfalto, dizendo sua missa baixinha.








