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Em gravação inédita, Gritzbach detalha “absolvição” em tribunal do PCC. Veja vídeo

Corretor de imóveis foi fuzilado em novembro de 2024 após fechar delação com o Ministério Público denunciando policiais e membros do PCC

Rota Norte Notícias Por Rota Norte Notícias
Fonte: Metrópoles
26/06/2026
em Polícia
Em gravação inédita, Gritzbach detalha “absolvição” em tribunal do PCC. Veja vídeo

Fuzilado em novembro de 2024 na área de desembarque do terminal 2 do Aeroporto Internacional de Guarulhos, na Grande São Paulo, o corretor de imóveis Antônio Vinícius Gritzbach (foto em destaque) havia iniciado, meses antes, a negociação de uma delação premiada com o Ministério Público de São Paulo (MPSP). A gravação de uma reunião por videoconferência que antecedeu o acordo, obtida com exclusividade pelo Metrópoles, revela relatos até então inéditos do delator, como a ocasião em que ele foi sequestrado pela alta cúpula do Primeiro Comando da Capital (PCC) e acabou “absolvido” pela facção.

O registro das tratativas de delação foi feito em 10 de janeiro de 2024, em uma videochamada na qual Gritzbach, no escritório dos advogados que o representavam, conversou com os promotores Lincoln Gakiya, Fábio Bechara e Carlos Bruno Gaya da Costa, do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do MPSP (assista abaixo).

O objetivo da conversa era entender o teor e a dimensão das denúncias de Gritzbach envolvendo o PCC – incluindo, por exemplo, o envolvimento de policiais com a facção, esquemas de lavagem de dinheiro utilizados pelo grupo e suas movimentações financeiras. Nesse contexto, ele discorreu sobre o episódio em que foi alvo de uma emboscada e levado para um tribunal do crime – detalhando como conseguiu sair vivo e absolvido pela maior organização criminosa do país.

As negociações para a delação ocorreram nos meses seguintes. O acordo foi assinado com o MPSP, em março de 2024, e homologado pela Justiça paulista no mês seguinte. As revelações seriam o pano de fundo para a sua execução, ocorrida em novembro daquele ano, no maior aeroporto da América Latina, após retornar de uma viagem na qual passou uma semana em Alagoas, ao lado da namorada. O crime aconteceu diante de dezenas de testemunhas.

O sequestro de Gritzbach

Um dia antes do sequestro, ocorrido em janeiro de 2022, Emílio Carlos Gongorra Castilho, o Cigarreira – que se apresentava a Gritzbach como João – telefonou para o corretor falando que ambos precisavam ir, no dia seguinte, ao escritório do advogado de Anselmo Becheli Santa Fausta, o Cara Preta, membro do PCC assassinado a tiros com seu motorista, Antônio Corona Neto, o Sem Sangue, em dezembro de 2021.

A ordem para matar os dois membros do PCC foi atribuída a Gritzbach, que ajudou Cara Preta na negociação de contratos milionários, por meio dos quais o membro da facção lavou dinheiro do crime com a aquisição de imóveis.

Gritzbach sempre negou envolvimento no episódio. O sequestro dele, conforme relatado, ocorreu para que esclarecimentos sobre o duplo assassinato fossem expostos em um tribunal do crime – sistema de justiça paralela criado pelo PCC para julgar e punir traidores, pessoas que descumprem suas regras internas ou que cometem crimes reprovados pela facção.

Detalhes do episódio

O corretor foi sozinho, por volta das 9h, até um imóvel em obras, adquirido por Cigarreira, mas que estava registrado no nome de um primo de Gritzbach, prática comum no mundo do crime para não deixar rastros do dinheiro de origem ilícita.

“Ele [Cigarreira] desceu de banho tomado, me deu um abraço, e falou: ‘vamo [sic] lá no advogado’. Eu falei ‘vamos’.”.

O diálogo se deu em um área na qual uma piscina era construída.

“Quando eu entrei na sala, começou a chegar um monte de gente”, pontuou Gritzbach, que listou ao Gaeco as pessoas que estavam sentadas em torno de um móvel, entre eles membros do PCC e colaboradores da facção. O corretor acreditou que todos iriam ao escritório de advocacia com ele e Cigarreira.

“Sentei à mesa e aí esse João [Cigarreira] veio e falou: ‘Olha Vinícius, não leva a mal, perguntas são feitas para serem feitas e respondidas’ e eu não estava entendendo nada. E aí eles começaram a tocar nesse assunto do contrato [dos imóveis de Cara Preta], dizendo que eu estava com esse dinheiro.”

Gritzbach, então, argumentou que tinha os contratos, mas não “tinha domínio” sobre eles.

“Não é assim que… Eu vou ligar para o dono da construtora, pedir os R$ 12 milhões e ele vai me entregar. Tem que fazer um destrato agora, o Anselmo [Cara Preta] faleceu. Precisa fazer o inventário, o espólio, a gente precisa ir atrás de advogado”, teria argumentado Gritzbach aos criminosos, segundo seu relato.

“Não tenho nada a ver”

Após a explicação, ele disse que o empresário ligado ao ramo do futebol Danilo Lima Oliveira, o Tripa, se levantou e revistou o corretor, que teve o celular e o notebook “apreendidos”.

Ambos os aparelhos foram acessados pelos criminosos, que passaram a verificar trocas de mensagens e e-mails de Gritzbach, até a chegada de Cláudio Marcos de Almeida, o Django, na ocasião uma importante liderança do PCC, responsável pela coordenação do envio de armamento pesado e pelo controle de metade das cargas de cocaína encaminhadas para o exterior.

“Quando o Cláudio chegou, eles mostraram a foto do cara sem cabeça [Cara Preta] e do agente penitenciário lá, o Davi [Moreira da Silva, apontado como comparsa de Gritzbach no suposto envolvimento na morte de Cara Preta e Sem Sangue].”

Perguntaram se Gritzbach reconhecia a foto de Davi, sobre o qual ele disse saber apenas que era segurança de uma pessoa ligada ao ramo de bitcoins.

“Aí eles falaram: ‘Você está envolvido nisso aí, o Anselmo morreu, você queria ficar com o dinheiro desses contratos’. Eu falei, ‘não tenho nada a ver, não tenho controle sobre esses contratos, eu não tenho o domínio sobre o dinheiro, não tenho nada a ver, o que precisam … o que vocês querem da minha ajuda?’.”

Carro e “tribunal”

Gritzbach foi então colocado em um carro, cujas portas foram travadas. Com o veículo em movimento, segundo seu relato, tentou convencer os criminosos de que não tinha nenhuma relação com o assassinato dos dois membros do PCC ou com o suposto desvio dos R$ 12 milhões. Ignorando os argumentos do “réu”, os criminosos desligaram o celular do corretor no trajeto até o local do julgamento paralelo, um alojamento de jogadores de futebol.

“Cheguei no alojamento, a todo o instante ameaçado. Aí saiu [apareceu] um alemão alto que falou que tinha vindo do Tocantins, que ele que esquartejou, que ele que veio para esquartejar as pessoas […] ele não falou [mais] nada, estava com duas armas na cintura”, afirmou o delator no depoimento gravado.

Além do Alemão, Gritzbach acrescentou que mais criminosos mantinham armas de fogo nas cinturas. Um dos bandidos chegou a vestir luvas cirúrgicas, com as quais lhe entregou um celular, orientando para ligar e se despedir dos familiares. Nesse momento, Django apareceu no local.

“Ele viu que eu estava chorando, não estava bem. Estava sem comer, estava desde as 9h, isso já era umas 17h30, aí ele falou: ‘Filho, bebe uma água, come um pão com manteiga aí’.”

O criminoso, segue o delator, disse a Tripa que era experiente em tribunais do crime e, com base nisso, havia percebido que o corretor não teria relação com a “pauta do júri”. “Ele [Gritzbach] vai resolver essa questão do contrato [milionário] com a construtora”, teria dito, antes de solicitar para que o corretor fosse liberado.

Os argumentos de Django foram aceitos e Gritzbach foi liberado com a companhia de Diego dos Santos Amaral, o Didi, e Rafael Maeda, o Japa.

A dupla o escoltou até em casa para cobrar a entrega imediata do contrato ligado a Cara Preta. Como o documento não estava na residência, teria de ser pego no escritório.

A companheira de Gritzbach na ocasião, segundo ele, o impediu de sair. Por isso, Robinson Granger de Moura, o Molly, com orientações do corretor, foi buscar o documento para ser entregue aos membros da facção.

“Ele [Molly] falou, meu, fica tranquilo, vai se solucionar isso, me pediu dinheiro, foi embora e foi assim que aconteceu isso [o sequestro]”, relatou Gritzbach.

Molly é empresário e acusado por organização criminosa e lavagem de dinheiro em três episódios. Ele foi preso durante a Operação Tacitus, em dezembro de 2024. A ação foi movida pelo MPSP por meio do Gaeco.

Mortes de Django e Japa

Em janeiro de 2022, Django foi encontrado morto, enforcado sob o viaduto Vila Matilde, bairro limítrofe com o Tatuapé. A morte foi arquivada pelo Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP), sem nenhuma investigação.

Cerca de 4 meses depois, Japa foi encontrado morto em um carro estacionado no Tatuapé. Fazia pouco tempo que ele havia prestado depoimento ao DHPP sobre a morte de Cara Preta.

O caso, primeiramente, foi registrado como suicídio. Depois, peritos constataram que a arma encontrada com Japa, uma pistola 9 milímetros, não havia sido usada e a história tomou outro rumo.

Outro detalhe que derrubou a tese de suicídio foi o fato de Japa estar com um tiro do lado esquerdo da cabeça e a arma encontrada com seu corpo, sem nenhuma munição deflagrada, estar na mão direita.

Júri de PMs suspeitos de matar Gritzbach

O julgamento dos três policiais militares acusados de fuzilar Gritzbach foi anulado, na última segunda-feira (22/6), no Fórum de Guarulhos. Eles também serão julgados pela morte do motorista clandestino de aplicativo Celso Novais, atingido por um dos disparos direcionados ao delator do PCC.

O Tribunal de Justiça de São Paulo remarcou o novo júri entre os dias 22 a 26 de fevereiro de 2027.

A nova data foi definida depois de o julgamento ter sido interrompido após cerca de nove horas de duração, por uma discussão entre a defesa e o promotor de Justiça Rodrigo Merli Antunes. Durante o embate, os advogados deixaram o plenário, o que levou à suspensão dos trabalhos.

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