Davi Friale, o artista do tempo, percorre o mundo de maneira imprecisa, quase como um boato que se dissolve no ar antes de ser compreendido em sua totalidade. E é essa mesma fugacidade que define sua arte — a arte da previsão do tempo. Ele não é como os outros meteorologistas, com suas estimativas, exatas, moldadas por gráficos e satélites. Não. Friale tem um olhar diferente, como o de um poeta que busca traduzir a dança das nuvens em palavras, um místico que vê o céu como um vasto quadro em movimento.
A sua história começa antes da academia, muito antes dos títulos e das especializações. Aos 12 anos, ele já era um pequeno cientista, isolado no seu quintal, observando a natureza e tentando desvendar os mistérios da chuva, do vento, da seca que castigava o Nordeste. Já tinha sua própria mini-estação meteorológica, composta por uma parafernália de instrumentos improvisados, e desenhava mapas, traçando com precisão empírica os caminhos do céu. Em sua mente, o tempo não era apenas uma questão de medição, mas de relação, de alma.
Ele sempre percebeu que o tempo não era apenas números, e que as variações catastróficas que faziam parte de seu repertório não eram, de fato, profecias apocalípticas, mas advertências para aqueles que evitam fechar os olhos ao que estão além da superfície. Ele sabia, como Diógenes, que o materialismo não faz parte do verdadeiro entendimento da vida. Friale, em sua sabedoria estranha e à sua maneira, aprendeu que a natureza, com todas as suas intempéries, era sua verdadeira guia. Ele não precisava de bens materiais, não desejava riquezas. Seu conforto estava no tempo — no tempo de observar, de sentir, de intuir.
Mas Friale não é apenas um observador da natureza. Ele é também um contador de histórias, um homem cujo coração pulsa em sintonia com o cosmos, e que se expressa por meio da sua previsão do tempo. Friale é um mentor que ensina, além da meteorologia, a arte de observar o mundo ao redor e de entender o que ele nos diz, mesmo quando os sinais são tênues e difíceis de decifrar. Seu método de ensino é peculiar: lento, contemplativo, pois se o tempo fosse uma partitura que ele decifraria especialmente para seus alunos. Ele fala de física e geografia, sim, mas sempre com o fundo do céu, da natureza, de um tempo que nunca é o mesmo.
E os seus olhos… os olhos de Davi Friale carregam algo enigmático. Talvez seja a memória de sua juventude, aquela época de criança que passa horas observando os ventos e as nuvens, ou talvez seja a sabedoria que só a solidão e o tempo podem trazer. Seu olhar, ao mesmo tempo, fixo e distante, é como o de alguém que já viu tanto, mas que continua à espera de mais. Ele olha para o céu como se ele fosse um livro aberto, cujas páginas estão sempre virando, sempre em transformação.
O tempo, para Friale, é um espaço mutável, onde a cada segundo pode carregar consigo uma mudança radical — como uma tempestade que chega sem aviso ou o sol que queima no horizonte com uma intensidade inesperada.
Por isso, ele é um artista do tempo. Não porque faça específica exatas, mas porque compreende o tempo como um todo, como uma entidade que flui e se altera, como uma tela em constante movimento. Friale não é um mero observador; ele é parte do fluxo, da imensidão que se desenha nos céus, nos ventos e na terra. E, por mais que o mundo lá fora busque respostas rápidas, Friale sabe que o tempo, verdadeiro e genuíno, é um enigma que nunca poderá ser totalmente compreendido.
No fundo, talvez ele não queira ser compreendido. Quem sabe ele mesmo seja o último a entender a totalidade do que observa. Afinal, o artista, em sua essência, é aquele que cria no meio da incerteza, que encontra beleza naquilo que os outros ignoram. E Friale, com sua mini-estação meteorológica no quintal e seus olhos fixos nas nuvens, é, sem dúvida, um dos últimos poetas do tempo.








