Faltando apenas três dias para a entrada em vigor de uma taxa de 50% imposta pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros, integrantes do governo de Luiz Inácio Lula da Silva afirmam que, por ora, não está prevista uma ligação entre o presidente brasileiro e o norte-americano Donald Trump.
Embora o telefonema não esteja na pauta imediata, fontes do Planalto confirmam que a possibilidade de um contato remoto entre os líderes não foi descartada. A ideia vem sendo avaliada por assessores presidenciais, diplomatas e aliados políticos de Lula, mas ainda sem definição sobre sua viabilidade ou conveniência.
Dentro do governo, há correntes que defendem que Lula tome a iniciativa e busque o diálogo direto com Trump. Essa sugestão, apoiada também por executivos de setores empresariais afetados pela nova tarifa, ainda não foi acatada. O Planalto gostaria de ter garantias de que o republicano não apenas aceitaria a chamada, mas que se mostraria disposto a discutir de maneira objetiva as relações comerciais e, especialmente, a questão tarifária — sem transformar a conversa em uma oportunidade para tensões políticas.
O receio é que Trump tente vincular qualquer avanço econômico a concessões de natureza político-institucional. Há, no entorno de Lula, a percepção de que o presidente americano usaria o diálogo como instrumento para projetar eleitoralmente seu aliado no Brasil, o ex-presidente Jair Bolsonaro. De acordo com interlocutores do Planalto, Trump estaria em busca de algo considerado “inegociável”.
Desde o início do mandato do republicano, suas interações com líderes estrangeiros têm causado desconforto no governo brasileiro. Em particular, episódios com os presidentes da África do Sul, Cyril Ramaphosa, e da Ucrânia, Volodmir Zelenski, durante encontros na Casa Branca, foram classificados como “constrangedores” por diplomatas brasileiros. O temor é que uma abordagem semelhante se repita em eventual conversa com Lula.
Por isso, qualquer possibilidade de diálogo direto entre os presidentes seria cuidadosamente preparada pelas equipes diplomáticas, sem espaço para improvisações — como reforçou um embaixador próximo às discussões.
Essa não é a primeira vez que um telefonema entre Lula e Trump é cogitado. Desde a vitória eleitoral de Trump, em novembro de 2024, a hipótese de uma conversa foi levantada, mas nunca se concretizou. Na ocasião, Lula chegou a reconhecer o resultado por meio de uma breve publicação nas redes sociais, considerada um gesto de abertura. No entanto, as divergências ideológicas entre ambos e o histórico de críticas mútuas impediram qualquer avanço. Eles chegaram a estar presentes na mesma edição da Cúpula do G7, no Canadá, em junho, mas não se encontraram.
O tema voltou ao radar após o anúncio das tarifas feito por Trump através de uma carta pública publicada em suas redes sociais — documento que o Itamaraty optou por devolver, sem acatar o teor.
Em entrevistas, Lula inicialmente afirmou que só ligaria para Trump “se houvesse motivo para isso”. Mais recentemente, no entanto, mudou de tom e indicou disposição ao diálogo, desde que parta do republicano. Trump, por sua vez, nunca tomou a iniciativa nem sinalizou formalmente intenção de conversa. Pelo contrário: as respostas à tentativa de aproximação têm sido o silêncio e a interrupção dos canais diplomáticos.
Diante do impasse, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, se colocou à disposição para viajar a Washington ainda nesta semana, caso fosse recebido por autoridades de alto escalão do governo Trump para discutir a questão comercial. O chanceler participou de reuniões na ONU nesta segunda-feira (28) e segue em Nova York nesta terça (29), em articulações discretas, mas até o momento sem retorno dos americanos.
Uma eventual reunião de Vieira com representantes do governo dos EUA serviria como etapa preliminar para uma conversa entre os chefes de Estado — ainda considerada improvável, mas não totalmente descartada.








