A gestão do prefeito Tião Bocalom em Rio Branco está se desfazendo como uma nuvem passageira, aquelas que prometem chuva mas só deixam o céu vazio e o chão seco. Não é preciso ser um gênio da política para perceber que o governo municipal virou um castelo de cartas marcadas, prestes a desabar ao menor sopro de crítica ou, pior, diante da realidade nua e crua dos fatos. O desabastecimento de água, que já virou uma espécie de marca registrada da capital acreana sob seu comando, foi apenas uma gota d’água — ironicamente, uma gota que nunca chegou às torneiras da população. Mas se a seca nas casas já é um escândalo por si só, o que dizer do Elevado Beth Bocalom, essa obra que parece carregar em si o peso da vaidade e da incompetência em proporções igualmente colossais?
Inaugurado com pompa e especificidade no final de dezembro de 2024, o elevado, situado na Estrada Dias Martins, teve tempo de brilhar mal como o “novo cartão-postal” de Rio Branco antes de começar a desmoronar — literalmente. Neste sábado, 22 de março de 2025, a letra “B” do letreiro que ostenta o nome da falecida esposa do prefeito, Beth Bocalom, resolveu se libertar da estrutura e caiu na via, como se até as placas quisessem fugir da vergonha de fazer parte dessa gestão. O trânsito segue normalmente, mas o simbolismo não poderia ser mais gritante: enquanto os carros passavam, a obra de R$ 17,9 milhões — dinheiro suado do contribuinte, segundo o próprio prefeito — dava seu primeiro suspiro de decadência. Um “B” no chão, um tapa na cara de quem acreditou que essa administração poderia erguer algo sólido.
A obra, que começou no final de 2023 com a promessa de ser concluída em 180 dias, já nasceu atrasada, como tudo o que parece tocar a mão de Tião Bocalom. Previsto para julho de 2024, o elevado só foi entregue no apagamento das luzes do ano, e agora, menos de três meses depois, já mostra sinais de que foi feito às pressas, com o mesmo desleixo que caracteriza a gestão. Pintado de azul — talvez para disfarçar as rachaduras com um tom de otimismo proposto —, o elevado de 188 metros de extensão foi vendido como um marco de mobilidade urbana. Mas o que se vê é um monumento à vaidade pessoal, batizado em homenagem à esposa falecida do prefeito, numa jogada que o Ministério Público do Acre (MP-AC) já questiona com razão.
Afinal, onde ficam os princípios da impessoalidade e da moralidade quando um gestor usa o erário para eternizar seu luto particular?
O MP-AC, aliás, não está dormindo no ponto. A 2ª Promotoria Especializada de Defesa do Patrimônio Público já entrou com representação na Procuradoria-Geral de Justiça solicitando uma análise constitucional dessa homenagem descarada. E não é para menos: em tempos de torneiras secas, buracos nas ruas que parecem crateras lunares e uma frota de ônibus que mais parece sucata ambulante, o prefeito decide gastar quase R$ 18 milhões numa estrutura que, além de duvidosa em sua utilidade, agora perde pedaços como se fosse feito de açúcar sob a chuva. Será que o “B” que caiu não é um aviso do universo, um grito mudo de que até as letras estão cansadas de sustentar essa farsa?
E o que dizer da gestão que, diante de tantos problemas, ainda encontra tempo para traquinagens como nomear a atual esposa, Kelen Rejane Nunes Bocalom, como chefe de gabinete, com salário que pode chegar a R$ 28,5 mil? Enquanto o povo sofre com enchentes — com o prefeito sumindo do mapa e jogando a culpa na população —, Tião Bocalom parece mais preocupado em construir seu pequeno império familiar do que em governar para o bem comum. O Elevado Beth Bocalom, com sua letra caída e sua constitucionalidade questionada, é apenas o espelho de uma administração que se desmancha em público, diante dos olhos de um Rio Branco que merece mais do que promessas ocas e obras que não resistem nem ao vento.
Vai trabalhar, senhor Bocalom! Deixe de lado os caprichos pessoais e as homenagens duvidosas. A população não precisa de viadutos que desabam ou de cargos para uma família; precisa de água, de ruas decentes, de um prefeito que governa para todos, não para si mesmo. O “B” pode ter caído, mas a gestão inteira está prestes a despencar — e o barulho desse tombo vai ecoar bem mais alto que o silêncio das suas justificativas.
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