O cenário político do Acre caminha para um marco de representatividade de gênero nas próximas eleições estaduais. Pela primeira vez, o eleitorado poderá ter duas mulheres encabeçando chapas majoritárias na disputa pelo comando do Poder Executivo estadual: a atual governadora Mailza Assis e a ex-deputada federal Jéssica Sales. O desenho das pré-candidaturas joga luz sobre o papel do eleitorado feminino, que hoje representa a maioria dos votantes aptos no estado — cerca de 51%, segundo dados oficiais do Tribunal Regional Eleitoral (TRE-AC).
Ambas trazem trajetórias distintas, com forte apelo social e bases políticas consolidadas em diferentes regiões e nichos do estado, refletindo a pluralidade do debate público acreano.
Mailza Assis: da suplência ao comando do Executivo
Natural de Minas Gerais, mas com carreira política consolidada no Acre, Mailza Assis chegou ao Palácio Rio Branco após uma trajetória de ascensão no Legislativo e no Executivo. Em 2014, foi eleita primeira suplente na chapa de Gladson Cameli ao Senado Federal. Com a vitória de Cameli ao governo estadual nas eleições subsequentes, Mailza assumiu em 2019 a cadeira de senadora, exercendo o mandato por quatro anos.
Nas eleições de 2022, compôs a chapa majoritária como candidata a vice-governadora. Vitoriosa ao lado do titular, ela exerceu a função até assumir em definitivo a chefia do Executivo estadual em abril de 2026, após as devidas movimentações sucessórias previstas na legislação.
Historicamente ligada aos movimentos sociais de assistência básica e com forte trânsito e apoio de lideranças evangélicas do estado, Mailza baseia sua atuação na continuidade administrativa e em programas de acolhimento social.
Jéssica Sales: tradição no Vale do Juruá e pautas de diversidade
Do outro lado da disputa desponta a médica ginecologista e obstetra Jéssica Sales. Natural de Cruzeiro do Sul, Jéssica carrega a tradição política de sua família no Vale do Juruá: é filha do ex-prefeito do município, Vagner Sales, e da deputada estadual Antônia Sales. Ex-deputada federal por dois mandatos (2015–2023), ela ganhou forte projeção ao disputar a prefeitura de sua cidade natal em meio a um severo tratamento de saúde contra um câncer.
Paralelamente à atuação voltada à saúde pública e ao municipalismo, Jéssica traz um componente contemporâneo ao debate representativo. Casada com outra mulher, a ex-parlamentar integra a comunidade LGBTQIA+. Embora não paute sua trajetória política exclusivamente por bandeiras identitárias, mantendo o foco de atuação em áreas institucionais, orçamentárias e de infraestrutura, a sua posição consolida-se como um referencial natural de diversidade e direitos civis dentro do espectro político tradicional local.
O voto feminino no centro das atenções
O avanço de duas lideranças femininas competitivas ao cargo máximo do estado dialoga diretamente com as estatísticas do eleitorado.
Apesar de as mulheres serem maioria entre os votantes (51%), a representação feminina em cargos eletivos majoritários e proporcionais no Acre ainda busca maior equilíbrio frente ao histórico de ocupação dos espaços públicos.
A coexistência de duas candidaturas com perfis tão distintos — uma amparada de forma expressiva pelo eleitorado conservador e religioso, e outra vinculada a uma tradicional força política do interior e aberta a discussões de pluralidade social — promete pulverizar o voto feminino e redefinir as estratégias partidárias no estado, respeitando o espaço democrático e o pluralismo de ideias.








