A morte de Silene Farias, aos 73 anos, nesta quarta-feira, 8 de janeiro, reverbera na alma da cultura acreana como um eco profundo, quase inaudível, mas impossível de ignorar. Em sua partida, parece que a floresta do Acre, com suas montanhas e rios, perdeu uma das suas raízes mais significativas, aquelas que, de forma silenciosa e decidida, sustentam o que somos. Silene foi daquelas pessoas que plantam, cultivam e fazem florescer o mais belo e nobre das tradições, da memória e da resistência cultural.

Nasceu em 1951, em Tarauacá, terra que, de algum modo, atravessa o próprio corpo da Amazônia. Seus primeiros passos na vida cultural começaram com a família. Irmã do artista plástico Bab Franca, e de Cícero e César Farias, conhecido também pelo cantor Zé Jarina, Silene parecia ter nascido com a missão de ser a voz que uniria tantas histórias, tantos mitos e tantos ecos. Era impossível não ser contagiado pelo fervor criativo que corria nas veias dessa família que respirava arte, pintura, música, poesia.
Seus passos na cultura acreana, no entanto, não eram meramente familiares; ela foi fundadora, em 1978, da Fundação de Teatro do Acre (FETAC), e suas poesias, com sua acentuada carga de denúncia e resistência, já eram um reflexo de seu engajamento. Em 1981, com a publicação de suas três primeiras poesias na “Coletânea de Poesias Acreanas”, Silene se inscrevia na história de um povo que, através das palavras, buscava refletir e exaltar sua luta. Era o grito silencioso dos seringueiros e trabalhadores rurais, mas também o grito de um ser humano consciente das adversidades que sua terra enfrentava.
Mas o maior legado de Silene talvez seja a sua busca incansável pela preservação e fortalecimento das tradições culturais acreanas. Em 2005, junto com o irmão César, ela fundou o grupo folclórico Jabuti Bumbá, com o propósito de resgatar e narrar as histórias tradicionais da Amazônia, com o vigor e as vantagens de quem conhece o chão e a alma do lugar. Silene não apenas resgatou o folclore, mas o fez com o coração aberto, cheio de amor e reverência por suas origens. Cada passo do Jabuti Bumbá foi uma celebração do que é ser acreano, do que é ser amazônico, com tudo o que isso significa em termos de identidade e cultura.
Sua contribuição à cultura foi também uma luta contínua por mais visibilidade e apoio às causas culturais de sua terra. Como presidente da Fundação Garibaldi Brasil (FGB), ela se dedicou à implementação de políticas culturais para a cidade de Rio Branco, sabendo que a cultura não se faz sem investimento, sem carinho, sem apoio. Sua atuação na FGB foi pautada pela necessidade de dar voz àqueles que, muitas vezes, eram esquecidos, desvalorizados.
Mas quem não se lembra de Silene Farias nas ruas de Rio Branco, participando da folia de carnaval com o bloco Maria Chita, idealizado em 2007? O bloco começou com apenas quinze pessoas e logo se tornaria um dos maiores espectros culturais da capital, reunindo milhares de foliões a cada ano. Maria Chita resgatava a tradição do carnaval de rua, com a simplicidade de um tempo em que o carnaval era de todos, sem ostentação, apenas alegria. Silene entendia a essência da festa, que vai muito além dos núcleos e dos ritmos, e buscava manter viva a chama do verdadeiro espírito popular, aquele que nasce da rua, da alegria do povo.

Em cada ação, em cada projeto, em cada palavra, Silene era uma guerreira da cultura. Sua luta não foi apenas pelo Acre, mas por uma identidade mais forte e digna para todos os brasileiros. Ela esteve sempre à frente, com coragem, com generosidade, com a força de quem sabe que o cultural é o que permanece, é o que constrói a memória de um povo, e é por isso que sua luta jamais será esquecida.
Agora, enquanto sua vida se apaga no calendário do tempo, a sensação que fica é que Silene Farias é, de alguma maneira, imortal. O trabalho de uma vida não desaparece com a morte, ele se espalha, se multiplica. As memórias que ela plantou, as sementes que guardadas, continuam a florescer nos corações dos que continuam a resistir pela cultura do Acre e do Brasil. E assim, Silene se torna parte dessa vastidão de histórias e narrativas que nunca terão fim, pois, como a floresta, sua luta sempre renovada será por novos gerados, por novos corações que pulsarão com a sua força, com sua paixão pela arte, pela tradição e pela terra.
E quem sabe, ao olhar para o céu, veremos o espírito de Silene flutuando entre as árvores do Acre, como um rio invisível, sempre presente, sempre guiando os passos dos que ainda buscam, como ela, dar voz àquelas que não podem falar. Ela, que tanto amou a cultura e o povo de sua terra, agora está registrada no legado imortal que ela mesma foi construída. Silene presente.
Pitter Lucena é jornalista e escritor








