Rio Branco vive um enredo digno de tragédia grega, mas com roteiristas de pastelão. A cidade, que parece ter saído de uma profecia invertida – cercada de rios por todos os lados e, ainda assim, seca –, assiste perplexa ao seu próprio colapso hídrico enquanto o prefeito, de copo cheio, pede que a população economize as últimas gotas de esperança.
A frase de Tião Bocalom ecoa como um bordão cínico de stand-up político: “Infelizmente este era um problema de 20 anos que acabou estourando em nossa mão…” . Estourou? Estourou onde? No bolso do povo, que continua pagando a conta sem receber o produto? No rio, que viu sua balsa capotada descer correnteza abaixo como um bote à deriva? Ou na paciência do cidadão, que há muito já virou poeira?
As imagens das bombas de captação à deriva, feito um ritual de oferenda às águas, só que sem oferenda. A balsa, solitária e flutuante, virou símbolo da gestão municipal: sem rumo, sem controle e entregue ao acaso. O rio levou o que quis, a prefeitura ficou apenas com as desculpas esfarrapadas e promessas recicladas. Os moradores, por sua vez, não sabiam se choravam, rezavam ou começavam a tomar banho de lenço umedecido.
No teatro do absurdo que virou a cidade, as piadas se fazem sozinhas. O prefeito, como um mágico atrapalhado, tenta transformar um problema específico em algo inesperado.
“Ninguém poderia prever!”, dizem os avaliadores. Mas a realidade é outra: qualquer morador da capital que tenha acompanhado a novela da ETA sabia que o final seria esse. O problema não estourou nas mãos do prefeito. Ele simplesmente fingiu que não estava segurando uma bomba-relógio.
E enquanto Bocalom pede paciência, o povo pede água. Enquanto ele fala em “economizar”, as torneiras gritam em seco. E a maior ironia de todos: Rio Branco está debaixo d’água e sem água. Um paradoxo digno de Gabriel García Márquez, só que sem o realismo mágico. Aqui, a realidade é apenas trágica.
E para quem descobriu que a crise de abastecimento era o pior cenário, vem aí a cereja do bolo: o prefeito quer governar o Estado. Sim, o mesmo que viu a infraestrutura da capital desabar debaixo do nariz agora se coloca como uma solução para o Acre inteiro. Vai vendo. Se comanda uma cidade como quem joga dominó na praça, imagina um Estado.
No final das contas, quem paga o pato? A população, claro. Mas não se preocupe, caro morador: se a água da torneira sumiu, a conta vai continuar chegando direitinho. Afinal, pode faltar água, mas nunca falta cobrança. E agora, José? Vai esperar mais 20 anos ou finalmente vai parar de tampar o sol com a peneira? Porque de paliativo o povo já está cheio. Só não pode ser de água, porque esse, meu amigo, é artigo de luxo em Rio Branco.








