O Acre carrega um dado alarmante: em 2023, o estado registrou o segundo maior índice de feminicídios do Brasil, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). Com uma taxa de 2,4 mortes para cada 100 mil habitantes, a violência contra a mulher se tornou uma epidemia silenciosa, muitas vezes escondida dentro dos lares.
A casa, que deveria ser um refúgio, se transforma em cárcere para muitas acreanas. Dados da Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher revelam que 32% das mulheres no estado já sofreram algum tipo de agressão dentro do ambiente doméstico ou familiar. O silêncio das vítimas, muitas vezes imposto pelo medo e pela dependência financeira, perpetua um ciclo de dor.
Em 2023, 10 mulheres foram mortas em crimes tipificados como feminicídio. Nos últimos seis anos, de 2018 a 2024, foram 77 feminicídios consumados e 111 tentativas registradas.
Mesmo com uma queda relativa em 2024 – quando o Observatório de Violência de Gênero (OBSGênero) registrou a menor taxa de feminicídio dos últimos sete anos (1,9 por 100 mil mulheres) – a violência segue como uma sombra assustadora.
O Alerta Vermelho: Violência Cotidiana
Além dos assassinatos, os números apontam um crescimento nos casos de agressões físicas, psicológicas e patrimoniais. Nos últimos 12 meses, 25% das acreanas relataram terem sido vítimas de violência. E o dado mais impactante: 74% das mulheres conhecem pelo menos uma vítima.
Os relatos são diversos: mulheres que sofrem ameaças constantes, que têm seus celulares quebrados pelos companheiros, que vivem presas dentro de casa por ciúmes e posse. “Ele dizia que se eu saísse, não voltaria viva. E eu acreditei. Passei anos vivendo com medo,” conta uma sobrevivente que preferiu não se identificar.
Medidas e Desafios
Apesar dos avanços na legislação e da Lei Maria da Penha, que completou 18 anos em 2024, o desafio de frear a violência doméstica no Acre é imenso. O estado conta com Delegacias Especializadas no Atendimento à Mulher (DEAMs) e com a Casa Abrigo, mas muitas mulheres ainda encontram dificuldades para romper com o ciclo da violência.
Outro problema é a interiorização da violência. Em pequenas cidades e comunidades ribeirinhas, o acesso à denúncia é mais difícil, e a cultura machista ainda impera, fazendo com que muitas mulheres sequer reconheçam que são vítimas.
O Futuro: Caminhos para a Mudança
Para especialistas, a solução passa por educação e políticas de prevenção. “Precisamos ensinar meninas e meninos sobre igualdade desde a infância. O combate ao feminicídio começa na escola,” afirma a psicóloga Clara Lima, que atua com mulheres vítimas de violência.
A luta é de todas e todos. Denunciar é fundamental. O telefone 180 é a principal linha de apoio, funcionando 24 horas por dia, de forma gratuita e sigilosa.
No Acre, a violência doméstica ainda é uma realidade gritante, mas a voz das mulheres que sobrevivem e denunciam é a esperança de um futuro onde a liberdade não seja apenas um sonho.









