Uma imagem compartilhada nas redes sociais pelo advogado Valadares Neto expõe o cinismo que tantas vezes camufla a violência de gênero no Brasil: ele posa vestindo uma camiseta com a frase estampada: “Sou homem e contra o feminicídio”. Fora das telas e do verniz publicitário, contudo, a narrativa do “aliado” desmorona. A peça de roupa com slogan progressista não resiste ao peso das investigações que o colocam como o principal suspeito de encomendar a morte brutal e covarde de sua ex-companheira, uma médica assassinada no Acre.
Camisetas temáticas, slogans de campanha e postagens engajadas transformaram-se em escudos convenientes. Exibir palavras de ordem criadas por estratégias de marketing digital não traduz conduta moral, não estabelece caráter e, acima de tudo, não tem o poder de apagar um histórico pregresso de denúncias de agressões contra a mulher. No caso em questão, os indícios acumulados no passado não foram ruídos passageiros: converteram-se no prelúdio de uma execução encomendada, desnudando a distância abissal entre o discurso de autoexaltação pública e as atitudes mantidas a portas fechadas.
O desenrolar do caso ganhou contornos ainda mais dramáticos com a notícia de uma tentativa de suicídio do próprio advogado, ocorrida enquanto o cerco investigativo se fechava ao seu redor. Diante de um episódio de extrema gravidade — que envolve o assassinato premeditado de uma profissional da saúde e aponta para a autoria intelectual de um operador do Direito —, o silêncio institucional ecoa de forma perturbadora.
A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), instituição que Valadares Neto integra e representa formalmente perante a sociedade, mantém uma postura de omissão pública. A entidade de classe, historicamente vocal na defesa dos direitos humanos e do Estado Democrático de Direito, não emitiu até o momento um posicionamento contundente sobre a brutalidade do crime nem sobre o fato de um de seus inscritos figurar no centro de um inquérito de feminicídio com indícios de crime de mando. Em casos como este, o silêncio corporativista não soa como prudência processual, mas como indiferença diante do sangue derramado.
A tragédia não é um fato isolado; insere-se em uma realidade estrutural crônica. O estado do Acre figura repetidamente nos rankings nacionais com as taxas mais alarmantes e vergonhosas de violência letal e feminicídio contra a mulher. Trata-se de uma geografia marcada pelo perigo cotidiano, onde medidas protetivas falham e onde a certeza da impunidade ainda encoraja agressores.
A morte da médica escancara que slogans vazios não salvam vidas. A retórica performática de quem posa contra o feminicídio para colecionar aprovação virtual é incapaz de alterar o quadro macabro que assola as mulheres acreanas. Nenhuma estampa de algodão apaga o histórico de violência, nenhuma pose digital substitui a responsabilização civilizatória, e nenhuma instituição pode se calar enquanto a vida das mulheres continuar sendo tratada como descartável.







